Na Vertigem do Dia - Ferreira Gullar e os temas de sua predileção

Ferreira Gullar encanta com as suas vertigens de signos sonoros

Depois do livro POEMA SUJO, a realeza poética de Ferreira Gullar retorna NA VERTIGEM DO DIA (1975-1980), retratando seus emblemáticos temas, eleitos por sua inteligência literária, como as frutas podres, o renascimento da poesia, a palavra social... é uma obra mais branda, devido à tempestade da anterior.

 

Não é voz de passarinho

flauta do mato

viola

 

Não é voz de violão

clarinete pianola

 

É voz de gente

( na varanda? na janela?

na saudade? na prisão? )

 

é voz de gente - poema:

fogo logro solidão

 

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Para uma vida de merda

nasci em 1930

na Rua dos Prazeres

 

Nas tábuas velhas do assoalho

por onde me arrastei

conheci baratas formigas carregando espadas

caranguejeiras

                       que nada me ensinaram

exceto o terror

 

Em frente ao muro negro no quintal

as galinhas ciscavam, o girassol

gritava asfixiado

               longe longe do mar

                 (longe do amor)

 

E no entanto o mar jazia perto

detrás de mirantes e palmeiras

embrulhado em seu barulho azul

 

E as tardes sonoras

rolavam claras sobre nossos telhados

sobre nossas vidas.

                             E do meu quarto

eu ouvia o século XX

farfalhando nas árvores da quinta.

 

Depois me suspenderam pela gola

me esfregaram na lama

me chutaram os colhões

e me soltaram zonzo

em plena capital do país

sem ter sequer uma arma na mão.

 

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MORTE DE CLARICE LISPECTOR

 

Enquanto te enterravam no cemitério judeu

do Caju

( e o clarão de teu olhar soterrado

resistindo ainda)

o táxi corria comigo à borda da Lagoa

na direção de Botafogo

E as pedras e as nuvens e as árvores

no vento

mostravam alegremente

que não dependem de nós

 

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Não quero morrer não quero

apodrecer no poema

que o cadáver de minhas tardes

não venha feder em tua manhã feliz

                               e o lume

que tua boca acenda acaso das palavras

- ainda que nascido da morte -

                          some-se

                          aos outros fogos do dia

aos barulhos da casa e da avenida

                                    no presente veloz

 

Nada que se pareça

a pássaro empalhado múmia

de flor

dentro do livro

            e o que da noite volte

volte em chamas

           ou em chaga

 

         vertiginosamente como o jasmim

que num lampejo só

ilumina a  cidade inteira

 

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Como um relógio de ouro o podre

oculto nas frutas

sobre o balcão (ainda mel

dentro da casca

na carne que se faz água) era

ainda ouro

o turvo açúcar

vindo do chão

              e agora

ali: bananas negras

               como bolsas moles

               onde pousa uma abelha

               e gira

               e gira ponteiro no universo dourado

                ( parte mínima da tarde)

em abril

             enquanto vivemos

 

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Espelho espelho velho

alumiando

debaixo da vida

 

Quantas manhãs e tardes

diante das janelas

viste se acenderem

e se apagarem

quando eu já não estava lá?

 

De noite

na escuridão do quarto

insinuavas

que teu corpo era de água

 

e te bebi

sem o saber te bebi e te trago

entalado

de um ombro a outro

 

dentro de mim

e dóis e ameaças

estalar

 

estilhaçar-se

com as tardes e as manhãs

que naquele tempo

atravessavem a rua

e se precipitavam em teu abismo claro

                                                           e raso

espelho

espelho velho

 

e por trás de meu rosto

                                      o dia

bracejava seus ramos verdes

sua iluminaa primavera

 

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O sofrimento não tem

nenhum valor

Não acende um halo

em volta de tua cabeça, não

ilumina trecho algum

de tua carne escura

( nem mesmo o que iluminaria

a lembrança ou a ilusão

de uma alegria).

 

Sofres tu, sofre

um cachorro ferido, um inseto

que o inseticida envenena.

Será maior a tua dor

que a daquele gato que viste

a espinha quebrada a pau

arrastando-se a berrar pela sarjeta

sem ao menos poder morrer?

 

           A justiça é moral, a injustiça

não. A dor

te iguala a ratos e baratas

que também de dentro dos esgotos

espiam o sol

e no seu corpo nojento

de entre fezes

               querem estar contentes.

 

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Sou uma coisa entre coisas

O espelho me reflete

Eu ( meus

olhos)

reflito o espelho

 

Se me afasto um passo

o espelho me esquece:

 - reflete a parede

   a janela aberta

 

Eu guardo o espelho

o espelho não me guarda

( eu guardo o espelho

a janela a parede

rosa

eu guardo a mim mesmo

refletido nele):

sou possivelmente

uma coisa onde o tempo

deu defeito

 

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Quando

com minhas mãos de labareda

te acendo e em rosa

                     embaixo

                      te espetalas

quando

                com meu facho aceso e cego

penetro a noite de tua flor que exala

urina

e mel

          que busco eu com toda essa assassina

fúria de macho?

                       que busco eu

                                             em fogo

                         aqui embaixo?

                          senão colher com a repentina

                          mão do delírio

                          uma outra flor: a do sorriso

                           que no alto o teu rosto ilumina?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

NA VERTIGEM DO DIA, encontramos uma redenção, uma das pérolas raras da Poesia Brasileira, chamada TRADUZIR-SE:

 

Uma parte de mim

é todo mundo:

outra parte é ninguém:

fundo sem fundo.

 

Uma parte de mim

é multidão:

outra parte estranheza

e solidão.

 

Uma parte de mim

pesa, pondera:

outra parte

delira.

 

Uma parte de mim

almoça e janta:

outra parte

se espanta.

 

Uma parte de mim

é permanente

outra parte

se sabe de repente.

 

Uma parte de mim

é só vertigem:

outra parte,

linguagem.

 

Traduzir uma parte

na outra parte

- que é uma questão

   de vida ou morte -

   será arte?

 

 

 

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Poemas de Ferreira Gullar

Minuta de Diego Mendes Sousa