Entre Desertos - Lina Tâmega Peixoto e o reflexo da poética

Poeta Lina Tâmega Peixoto

ENTRE DESERTOS de Lina Tâmega Peixoto é um dos livros mais significativos de poesia, publicado no Brasil, em 2013. A autora mineira é exímia em seu discurso filosófico-poético de ampliar horizontes áridos, onde os silêncios da alma são permanências de outros tempos, sinados por palavras, por metafísicas metafóricas de largas luzes, vocacionadas ao Belo, ao prazer estético de uma redenção.

Lina Tâmega Peixoto entrega ao leitor um punhado de ascese, que permite o encantamento imediato por sua escrita madura, reflexiva, verdadeira e imortal. É uma Poeta rara, de rico domínio do ofício de estar preenchida por atributos transcendentais que, entre o amor e a morte, é um assalto no extremo deserto da vida.

Todos nós estamos entre desertos, entre limites fecundos de sol e sombra, mar e areia, nos laços infinitos de uma miragem. Lina Tâmega Peixoto integra o canto uníssono de outras reais escritoras de hoje como Astrid Cabral, Maria Carpi, Deborah Brennand, Margarida Finkel, Myriam Fraga, Lenilde Freitas, Stella Leonardos, Adélia Prado, Olga Savary, Maria de Lourdes Hortas, Darcy França Denófrio, Lourdes Sarmento, Alice Spíndola, Raquel Naveira, Renata Pallottini, Alice Ruiz, Leonor Scliar Cabral, Maria Lúcia Dal Farra, Yeda Prates Bernis, Rita Moutinho, Terêza Tenório, Eunice Arruda, Denise Emmer, Dirce de Assis Cavalcanti, Sonia Sales, Vera Pedroza, Dalila Teles Veras, Leila Míccolis, Helena Ortiz, Thereza Christina Rocque da Motta, Carmem Moreno, Mariana Ianelli, Mirian de Carvalho, Aglaia Souza, Suzana Vargas, Cláudia Ahimsa, Ângela Melim, Elizabeth Hazin, Elisa Lucinda, Elisa Flores, Maria José Giglio, Carolina Ramos, Anna Guasque, Messody Benoliel, Vera Lúcia de Oliveira, Maria Helena Chein, Lucila Nogueira, Ana Miranda, Kori Bolivia, Angélica Torres, Neide Archanjo, Silvia Jacintho... Vozes inconfundíveis e marcantes.

 

Os nomes de minha vida

dizem de intrincadas metafísicas

desassombradas miragens

que fazem do aroma

uma ruiva romã

e do crespo tremor do sopro

um arvoredo.

 

Vivo do que pertence à argúcia do sentir:

 

                      as tatuagens do verde a navegar o mar

                      submisso às remadas dos mitos

 

                      a armadilha das roçadas letras onde soletro

                      o que cortaram junto com minhas tranças

 

                      a joaninha, fio de acácia,

                      em delicada sílaba da memória

 

                      a lagartixa irreversível na sua mudez

                      como erosão de prata na parede

 

                      o espinhel das imagens a estear o amor

                      para deitar a palavra junto à outra.

 

                      Meu corpo, semelhante

                      aos rumores da alma,

                      intenta a eternidade

                      nos nomes da vida.

 

ENTRE DESERTOS (2013)

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Não preciso de um túmulo.

Há uma cama de ossos no meu corpo

onde, incrustada na vida, dormirei.

 

Sinto nos dedos a dureza da alma

por entre o aroma da carne.

 

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Como dormir

se permaneço atenta ao zelo e alento da alma

como se ela fosse uma flor em vigília

a buscar a parecença do sol nas pétalas?

 

O ar é limpo, recém-lavado de sonhos.

A cama é uma nova pátria

onde me deito de lado

sobre as palhas da esperança.

O corpo é uma verdade inconclusa

um frêmito da escuridão

em alguma parte do quarto.

 

Durmo e durmo a veneranda insônia

que doce e mansa chega a madrugada

no trincar a noite

com o bater das pálpebras.

 

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Como reter um qualquer

pedaço de vida

se o esquecimento desmancha

até a sombra do sonho

que é o ócio do corpo?

O vazio e o nada rompem

as endurecidas lembranças

que seguram com remendos sagrados

a funda altivez da morte.

 

Já chamam de pátria

a surda cantiga da terra.

Risos, venenos, segredos,

suor de amantes, intrigas e encanto

disfarçam-se nos lírios

e nos enfeites do mármore.

 

O que fica

guardado no tempo?

 

Ossos sem nome.

 

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Cortado em duas metades

o mamão cobre-se de mamilos negros

com que a fruta suga

sua forma púrpura

para expor a polpa nua

que se desprega da casca

em macias lascas

que a colher escava.

 

Óleos raros da alquimia

tingem as tetas no prato.

As cuias de sementes

como negras luas secas

debrulham-se em muitas ilhas

mordidas pelo cavo e claro

tremor da boca.

 

 

 

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(Lina Tâmega Peixoto nasceu em Minas Gerais, em 1931)

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A inauguração e a idade da poesia

estão escritas nos livros da mão

costurados com a minha caligrafia.

 

Incrusto na metáfora

gerânios vermelhos

como brasas acesas pela cor.

Procuro o coração

em tudo que se encurva ao fruto da brisa.

Contemplo o ruído da luz

que se debate para compor os atavios da noite

e deixo à banal visão dos olhos

os nomes das palavras

preservados na mineração da escrita.

 

Para construir os princípios das páginas

transcrevo frases perfeitas de bom lastro e peso

lavradas de timbres, silêncio e corpo

temerosa de que, talvez, sim, talvez,

elas não permitam ler meus versos.

 

Quase decifram minha presença manuscrita.

Quase. Entre desertos.

 

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Sinto-me só.

Pediram-me chuva no deserto

como se eu fosse um seio

a amamentar as águas.

Deram-me abraços

com amargo travo de exílio.

 

Como tirar do espírito

o visgo que encobre a imagem

com que me apresento ao mundo?

Como destruir o disfarce

se mudar o jeito ambíguo

com que vivo?

Como cintilar a palha do amor

entrepernas enrugadas de cicatrizes?

Como tornar a vida um demônio humano

com uivos de ternura e acidulado aroma?

 

Cobrir os ombros com altas estrelas

amassadas pelo azul que o céu sustenta?

Escavar o coração para vê-lo

enlutado de rosas

e rosário de vozes enterradas vivas?

 

Sinto-me só

sem aquele homem que era a minha casa.

 

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O tempo escorre nos lábios

como azeite untando as vozes.

Devassa os campos do corpo

e deixa pelos caminhos

os alecrins das manhãs

a clarear de cantos o escasso amor.

Renasce, vazia e atemporal,

a fulguração da noite

nos extravios do sol

guardados no sótão.

 

O tempo é trama e tralha transitórias

fecunda imperfeição

entendimento de instintos

aleitamento do sonho

lume e verdugo juntos.

 

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Ele se aproximou

segurando a cabra com uma corda.

Respirava o ar aos empurrões

e mastigava uma lasca de fumo

quando se ouviu uns ciscos de voz

pedirem um pouco d'água.

 

Trouxe a caneca ao peito

como se fosse um crucifixo

a benzer a sede que o apunhalava.

Inclinou o corpo como

apanhasse a sua sombra

e deu de beber à cabra

na mais doce saciedade paterna.

 

Ele se foi levando a cabra

como um pedaço qualquer de Deus.

 

 

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Poemas de Lina Tâmega Peixoto

Minuta de Diego Mendes Sousa