Originais - Poemas de Dalila Teles Veras

A poeta intelectual Dalila Teles Veras. Seus poemas são elementos do real, com um quê de contestação e ávido lirismo interior.

"Escrevo assim como o marceneiro prega, cola, aplaina e lixa a madeira, vez ou outra martelando um dos dedos no lugar do prego. Escrevo assim como o tipógrafo escolhe a tipologia, capitulares e cartelas, compõe páginas, apara o papel que ultrapassa a medida e, via de regra, suja as mãos de tinta. Escrevo assim como a faxineira apaga manchas, elimina riscos, tira o pó das superfícies e chega ao final de cada jornada, ofegante e sem perspectivas, numa profissão sem plano de carreira.

É certo que alguns vivem de escrever, eu ainda vivo para escrever."

 

Depoimento de Dalila Teles Veras exclusivo para Diego Mendes Sousa.

 

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(Dalila Teles Veras nasceu em Portugal, em 1946, mas é uma vivente atuante na complexa atmosfera humana de São Paulo)

 

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NOITE

 

no bunker 

de papel e silêncio 

tento 

de arcaicos instrumentos 

munida 

(cadernetas e lapiseiras) 

apreender o dia 

e 

precariamente 

legendá-lo 

 

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SOB OS DITAMES DO (MEU) TEMPO

 

 

experimento e desconfio 

testo, provo, entranho 

arcaísmos  e tecnologia 

manuscritos e digitação  

papel e blog 

cartas  e whatsapp 

velozes alternâncias 

 

minha alma antiga 

protesta 

a consciência  

deste tempo me diz 

: 

problematizar 

para compreender 

a complexa humanidade  

em permanente 

movimento de rotação 

 

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MORTE ASSÉPTICA 

 

 

nos hospitais 

a morte sempre chega de madrugada 

morte asséptica 

morte a sós 

 

pela manhã  

o comunicado 

(a seco) 

e as instruções 

 

o corpo 

a burocracia do corpo 

 

a família 

diante do nada

 

 

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Minuta de Diego Mendes Sousa