Encantação - Do livro Âncoras da Memória de Diego Mendes Sousa

Era começo de uma manhã de novembro do ano de 2005. Vovó e eu saíamos da Catedral da PARNAÍBA rumo ao comércio do outro lado da Praça da Graça.

 

ENCANTAÇÃO

 

Era começo de uma manhã de novembro do ano de 2005. Vovó e eu saíamos da Catedral da PARNAÍBA rumo ao comércio do outro lado da Praça da Graça. Minha avó Maria José Ferreira Sousa sempre foi uma lady. Era professora de português, de matemática e de contabilidade, conselheira da Escola de Administração Fazendária - ESAF, cofundadora da primeira Faculdade de Administração da PARNAÍBA e Auditora Fiscal da Receita Federal do Brasil. De modo que, minha avó era o meu ídolo predileto. Sobre mim, ela exercia o exemplo de caráter reto a seguir e o símbolo do amor maternal. Pois bem, nessa passagem da Igreja Matriz às lojas de rua, minha avó avistara duas senhoras que eu não conhecia. Meu filho, estas são as irmãs do escritor que admiras. Àquela altura, eu já havia lido nove peças de teatro de Benjamim Santos, A Princesa do Mar-Sem-Fim e O Princês do Piauí, inclusive. Prazer Dona Sólima, prazer Dona Pergita, eu disse. Vovó, atenciosa, e sabendo do meu fascínio desde a infância por livros, cuidou logo de marcar um encontro entre Benjamim e eu. Naquele instante, diante daquelas senhoras, abriu a bolsa, remexeu e revirou, retirou um leque e apanhou uma caneta. Não achando um papel, pegou-me pelo braço e na palma da minha mão direita, anotou um número de telefone. Despedimo-nos. Meses depois, fins de fevereiro de 2006, dei por concluso aquilo que viria a ser o meu primeiro livro: Divagações. Da realização dessa obra, minha avó nada sabia. Eu estava seguro do projeto literário que levantara, no silêncio, dês 2003. Pensei em ser Romancista, mas não saía da segunda lauda. Os poemas multiplicavam-se, os poemas jorravam feito as águas do Rio Parnaíba que se lançam ao mar, em diversos caminhos. Vovó telefonou para Benjamim Santos e falou-lhe do neto, comovida. Tímido, tive medo de ir ao encontro do dramaturgo, mas fui. Não achei campainha, a sineta de anunciação, então, bati palmas. Minhas pernas tremiam, o suor escorria pelo rosto magro e pálido que eu tinha. Debaixo do braço, carregava apenas os originais do meu sonho de mero aprendiz. Benjamim puxa a porta, dá-me bom dia e pede-me para entrar e sentar. No terraço, a cadeira de mola estala. Entrego-lhe rapidamente os papéis, ele examina-os e pergunta-me sobre o que gostava de ler. Prontamente disse, Poesia! Falou-me de Rimbaud. Não tive tempo de dizer-lhe o quanto já o conhecia. Mandou-me voltar no outro dia, voltei, às 10h, conforme combinado no encontro anterior. Aí, Benjamim Santos abre a porta e grita com seu jeito teatral e afirmativo: Moleque! Tu és o maior poeta da Parnaíba! Levei na brincadeira, é claro, todavia ficou-me a certeza de que ali iniciava a encantação. Eu me sentia um Poeta, cujo primeiro leitor era também Poeta, ou melhor, era o Poeta de quem eu era fã! Sem a tietagem que o momento exigia, Benjamim abraçou-me e, a partir dali, passei da condição de ninguém, a alguém que pensa a literatura como via única de vida. Benjamim fez-me acreditar, fez-me ver, que eu poderia sim, ser Diego Mendes Sousa, um escriba agradecido.

Crônica de Diego Mendes Sousa, trecho do livro Âncoras da Memória.

 

 

 

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Peça de Benjamim Santos, que Diego Mendes Sousa leu aos 12 anos de idade.

 

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Maria José Ferreira Sousa nasceu em São Luís do Maranhão, em 1925, sendo prima legítima do Poeta Ferreira Gullar e avó do Poeta Diego Mendes Sousa.
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Benjamim Santos nasceu na PARNAÍBA, em 1939.

(Fotografia de Maurício Pokemon)