4 poemas de Diego Mendes Sousa na QUATETÊ de Carvalho Junior.

Diego Mendes Sousa é filho da Parnaíba!

Diego Mendes Sousa (Parnaíba/PI). Poeta em tempo integral e Indigenista brasileiro com atuação no Vale do Juruá (Acre), fronteira com Peru. Funcionário Público Federal e jornalista. Publicou Divagações (2006); Metafísica do Encanto (2008); 50 Poemas Escolhidos pelo Autor (2010); Fogo de Alabastro (2011); Candelabro de Álamo (2012); O Viajor de Altaíba (2013); Alma Litorânea (2014); Gravidade das Xananas (2015); Tinteiros da Casa e do Coração Desertos (2015); Coração Costeiro (2016); Fanais dos Verdes Luzeiros (2017) e Rosa Numinosa (2018). Vencedor de prêmios importantes como: Prêmio Olegário Mariano (UBE-RJ, 2009), por melhor livro do ano; Prêmio Castro Alves (UBE-RJ, 2013), pelo conjunto da obra; e Prêmio João do Rio da Academia Carioca de Letras (ACL, 2016). Membro titular correspondente da Academia Carioca de Letras (ACL), bem como da União Brasileira de Escritores do Rio de Janeiro (UBE-RJ). Membro efetivo da Associação Nacional de Escritores (ANE) e do PEN Clube do Brasil (Rio de Janeiro). Como advogado e jurisconsulto, pertence à Academia Brasileira de Direito e é sócio correspondente da Academia Cearense de Direito.

  pixiz-02-09-2018-20-26-51


FANAL DO TORRÃO REENCONTRADO

 

 

 

Vou me levantar agora e ir, irei para Innisfree.

|WB Yeats|

 

Vou-me embora pra Pasárgada.

|Manuel Bandeira|

 

 

 

 

Quando mais tarde

o peso cretino e revolto dos anos for temporão…

Na claridade do espelho de rugas ou

na tapeçaria de um rei pleno.

 

No tempo, em que a morte

começar a se avizinhar da vida

e a manhã for outra solidão amarga.

 

Irei reencontrar a Pasárgada da minha infância,

irei reviver Innisfree,

e o vidro calado dos olhos será a Parnaíba reencontrada,

a Ilha Grande, o mar da Pedra do Sal,

o Porto dos Tatus, o Carnaubal em silêncio…

 

Minha avó etérea que se fará saudade!

Meu avô menino que se fez esquecimento!

 

Irei de qualquer forma dormir.

 

Sonharei com laços, corações, casas, árvores, xananas, tinteiros, fanais, desertos, pássaros coloridos.

Ouvirei panelas em incêndio, o cheiro da carne assada, o gosto do rosbife, o prato principal, as luzes dos talheres refeitos,

tudo terá sabor de candelabro apagado.

 

Na velhice,

pretendo voltar ao Piauí.

 

Farei usufruto com o esplendor da energia solar,

sentirei os ventos que girarão a imensidão

da usina eólica,

conviverei com os cajueiros de cajus de amarelo intenso

como a tarde que habitará

a minha alma mais triste e ali suicida.

 

Altaíba, meu berço, já não será a mesma,

terá rosas ansiosas na sonolência tangível.

Viverei alegrias e tristezas no pensamento.

Amarei como quem perdeu a passagem

– sem jamais ter comprado o bilhete –

e a aventura de um trem

rumo a Amarração, na velocidade dos caranguejos.

 

O amor é uma simplicidade na convivência

nada ideal, somente afinidades

que embocam ocultas no sentimento.

 

Minha Pasárgada, minha Innisfree, minha Altaíba.

Meu Manuel Bandeira,

Meu William Butler Yeats,

eu, Diego Mendes Sousa,

na fantasia e na incerteza da imaginação.

Três poetas, três lugares imaginários,

três mistérios desiguais…

 

Levantarei, ainda, três profecias

(asas vermelhas de guarás, brancura de rasga-mortalha na noite,

o futuro da lua elegante

para sempre prateada sobre todas as coisas)

para aplacar a terra do nascimento,

o torrão do desaparecimento.

 

 


ALTAIR

 

 

Maysa são dois olhos e uma boca.

                                |Manuel Bandeira|

 

 

 

Agora memorizo um poema para Altair.

Altair é tudo,

Ali onde se reserva o peito náufrago.

 

Tanto é assim,

que Altair me embevece

me alcooliza me ilumina

me enfeitiça!

 

Além do comezinho…

 

Altair é-me tudo.

 

De fato, Altair tem tudo.

 

Altair é Tudo no meu signo de Nada.

 

O verde olhar de Altair é um.

 

Encantaria indígena!

 

Farol como a esperança em alto mar.

 

Sei que são tigres,

na vegetação do tempo!

 

Os lábios de Altair

são bandas de maçã.

 

O que sei dos olhos e da boca

de Altair,

uso como bandeira do maior Amor.

 

Altair – no corcel da primeira Eva –

irá fundar um país de muitos outros

sonhos.

 

O ritmo dos cavalos é um campo branco

e suave.

 

O êxtase da vida está nos fanais

dos meus versos sem rima.

 

Altair dá asas aos galopes deste

amante de romã.

 

Cato palavras para dizer Musa!

 

Outras palavras para escrever Deusa!

 

Imagino penso sei

que tudo na vida é um passo

adiante.

 

Viver é encimar delirante.

 

Amo como quem tenta

pesar elefantes.

 

Altair é a África

na rota das descobertas

prometidas.

 

 

Linda desde ontem,

quando vi luzeiros e velas.

 

Nem rio nem mar.

 

Uma constelação a ensinar um cruzeiro

inteiro.

 

Altair é o oceano dentro da minha dor.

 

Altair não é apenas a mulher que amo.

 

Altair é uma noite de dose bem escura.

 

É um doce de figo

na boca deste ardor

de jabuticaba negra.

 

Esta é a Altair,

a flor a xanana a rosa

de um amor instintivo

instalado no vento.

 

A Altair que me faz cantar.

 

Sou um trovador, sabedor

do mistério, do enigma,

da profecia nos cristais

marítimos.

 

Reconheço o Nada.

 

Mas Altair é Tudo.

 

E nesse tudo me basto.

 

Altair dorme ao lado.

 

E eu escrevo sempre para ela.

 

Ou melhor, canto

como a cantoria triste de Maysa.

 

Altair é uma Maysa.

 

Agressividade e expressão apaixonantes.

 

 


FANAL DO MISTÉRIO ÍNTIMO

 

 

                                Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?

                                                                                      |Manuel Bandeira|

 

 

 

Este sou eu, por dentro.

No centro, ossos intactos.

À direita, o coração

cujo conteúdo

é-me transparente.

 

Assim, de susto, vi-me

na noite de estômago

e solidão reluzentes.

 

No raio-x íntimo,

o doutor, por mim,

constatou:

 

Tua poesia é esta

desnudez

de ser esqueleto e delírio

no intestino de teu próprio

grito:

 

a claridade de vértebras

a operar enigmas.

 

 


FANAL DA CHUVA AUSENTE

 

 

A tarde era uma queda d’água.

A noite é um abismo.

 

Repara as nuvens em combustão!

 

Quem dirá – que o azul na mescla

de branco e cinza –

são metades

de um tempo banhado de luz?

 

 

 

======

Originalmente publicado na Quatetê: https://quatete.wordpress.com/2018/09/02/4-poemas-de-diego-mendes-sousa/