Ignorância e Egoísmo do Homem Comum- Crônica de Diego Mendes Sousa

Os indígenas sobrevivem porque sabem renunciar. Não ferem, não agridem, não ocupam espaços que não lhes pertençam.

 

 

 

 

IGNORÂNCIA E EGOÍSMO DO HOMEM COMUM

 

Diego Mendes Sousa

 

 

“Quê que esses índio quer aqui na cidade? Deviam tá caçando jabuti pá comer.”, foram os termos utilizados, como resposta, por um homem branco comum, ao indagar Altair a quem seriam destinadas as cestas de perecíveis que trazíamos de Cruzeiro do Sul para Feijó, ambas na geografia acreana, sob sol e chuva, mormaço da floresta mais que verde, mais que linda, deste pedacinho da Amazônia Legal.

Os versos de Lorca assaltaram-me. Foi-me impossível esconder, pois um poeta não esconde sensibilidade.

“Verde que te quero verde. Verde vento. Verdes ramas. O barco vai sobre o mar e o cavalo na montanha”.

No caminho até Feijó, vi diversos rios: o Juruá, o Liberdade, o Boto, o Gregório, o Acurauá e o Envira. Vi também gado pastando nos vales verdinhos da região.

Penso que com tanta riqueza, com a natureza como berço do homem, como o egoísmo e a desumanidade podem estar tão latentes em nós?

 

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Pela primeira vez, fiquei diante de uma Samaúma, árvore sagrada para os povos indígenas. Para eles, o gigante vegetal, que pode alcançar sessenta e cinco metros de altura, é madre mor da humanidade.

Nós, os homens brancos comuns, temos por mãe, o capital.

Nossa ignorância vem dos costumes. Nosso egoísmo vem do instinto de crer que tudo que há, pode nos pertencer, porém, sempre esquecemos que o ritmo da vida merece desprendimento e abdicação.

Os indígenas sobrevivem porque sabem renunciar. Não ferem, não agridem, não ocupam espaços que não lhes pertençam.

Vivem o Carpe Diem e primam pela coletividade.

 

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Altair permaneceu calada e o sujeito, autor da colocação inapropriada, engoliu a sua inveja, a sua desdita. Os indígenas Ashaninka e Madija ouviram aquilo e com a expressão de derrota, cabisbaixos pelo cruel destino, o barulho da chuva silenciou.

Cá, nos meus pensamentos de bardo que valorizam o símbolo, imagino que Tupã chorou.

 

 

Crônica de Diego Mendes Sousa

Fotografias de Diego Mendes Sousa e Altair Marinho