A Literatura está em Festa - Dos 100 aos 30, há 90 e 80 em 2019

Poeta Carlos Pena Filho

"Os autores aqui escolhidos fazem parte da minha própria dicção como escritor. Tive o privilégio de privar com Margarida Finkel, Audálio Dantas e Eunice Arruda, hoje falecidos. Retenho admiração sem par por Santo Souza, Benedito Nunes e Carlos Pena Filho, e nutro amizade a fio com Geraldo Holanda Cavalcanti, Carlos Nejar, Benjamim Santos, Lenilde Freitas, Leonor Scliar-Cabral e Maria Carpi.

2019 bate à porta. É hora de festejar, porque a Literatura sempre terá passagem na minha existência, e tenho plena certeza, na sua vida também!"

Diego Mendes Sousa

 

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100 anos do nascimento de SANTO SOUZA (1919-2014)

 

 

de auroras, noites e sereias
 
 
Jogo os dados no mar, como quem joga
a sorte das estrelas ou do vento,
e fico a embaralhar as ondas, como
o lúcido hierofante que desvenda
 
nas cartas o destino dos mortais.
Não sei qual é a carta-chave, mas
capto o sentido exato e a voz de quem
profere a frase mágica de tudo.
 
E se há no fundo náufragos que vão
com dedos ágeis folheando páginas
de noites e de auroras impossíveis, 
 
na superfície há sempre olhos profanos
de peixes e sereias, traduzindo
o jogo de meus dedos sobre o mar.
 
 
Poema de Santo Souza
 
 
 
 
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90 anos do nascimento de BENEDITO NUNES (1929-2011)
 
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"(...) as coisas que não podemos dizer é melhor calar, pois quando a linguagem filosófica ou poética se cala, ela está mostrando algo que não pode dizer inteiramente."

 

 

Pensamento de Benedito Nunes

 

 
 
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90 anos do nascimento de Audálio Dantas (1929-2018)
 
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Audálio Dantas perguntou: “Que livro é esse?” Carolina de Jesus respondeu: “O livro em que estou escrevendo as coisas daqui da favela”.
 
Trecho da reportagem sobre a decoberta da escritora Carolina de Jesus por Audálio Dantas.
 
(Carolina de Jesus com o jovem jornalista Audálio Dantas)
 
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90 anos do nascimento de CARLOS PENA FILHO (1929-1960)

 

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Desmantelo Azul 

 
 
 

Então pintei de azul os meus sapatos 
por não poder de azul pintar as ruas
depois vesti meus gestos insensatos 
e colori as minhas mãos e as tuas

Para extinguir de nós o azul ausente
e aprisionar o azul nas coisas gratas
Enfim, nós derramamos simplesmente
azul sobre os vestidos e as gravatas

E afogados em nós nem nos lembramos
que no excesso que havia em nosso espaço
pudesse haver de azul também cansaço

E perdidos no azul nos contemplamos
e vimos que entre nascia um sul
vertiginosamente azul: azul.

 

Poema de Carlos Pena Filho

 

 

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90 anos do nascimento de GERALDO HOLANDA CAVALCANTI (1929-)

 

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Assim fizeram, Geraldo, teu corpo magro

propício a tanta vibração, no entanto seco

como uma casca de tronco rejeitado

vivendo da seiva, tão recôndita

que apenas, lenta, o mais interno veio

percorre, para aflorar nos dedos ou nas folhas distantes

Há momentos maduros no caminho, quentes

como o útero preparado, esperando o teu toque

para virarem semente, e planta, e flor

Mas passas, esgueirando os teus braços, que não rocem

a tarde ensolarada

Assim te puseram na vida, herdeiro de sonhos

crestando com o medo o que fizera grande

tua mão espalmada ou teu sorriso franco

 

Poema de Geraldo Holanda Cavalcanti

 

 

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90 anos do nascimento de LEONOR SCLIAR-CABRAL (1929-)

 

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PURIM

 

 

Perfuma minha alcova, Esther,

foste a escolhida entre as donzelas.

As mãos de um rei sobre tua pele

tornam-se servas e estremecem

a cada nova descoberta.

 

Perfuma minha noite, Esther,

ó escolhida entre as donzelas.

Em teu sorriso há um mistério

e nos portais de tua entrega

iluminado eu entro cego.

 

Espalha tua mirra, Esther,

ó preferida entre as donzelas.

Que os teus gemidos de gazela

esta fingida morte selem

e de prazer tornam eterna.

 

Teu nome chamarei, Esther,

entre as centenas de donzelas.

Deponho o reino aos teus pés,

ao teu comando deixo o cetro

e do banquete fico à espera.

 

Poema de Leonor Scliar-Cabral

 

 

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90 anos do nascimento de MARGARIDA FINKEL (1929-2018)

 

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Beijar-te. Os pulsos, os dedos,

a palma da mão.

Não dizer palavra.

E permitir que a flor de lótus de mil pétalas

se faça túnica de seda de mil abraços.

 

Nadar contigo no rio do Tempo.

E na cumplicidade das estrelas amanhecidas

confiar-te o silêncio de mil palavras.

E abraçar-me a ti,

como se abraçasse um campo de trigo dourado.

 

Beijar-te. Não dizer palavra.

Banhar-me em ti,

no mistério das águas nascentes

das cascatas, em meio ao verde

das florestas internas.

 

Naufragar em ti.

Seguir tuas correntes marinhas.

Não dizer palavra.

 

Poema de Margarida Finkel

 

 

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80 anos do nascimento de Carlos Nejar (1939-)

 

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Abandonei-me ao vento


 
Abandonei-me ao vento. Quem sou, pode
explicar-te o vento que me invade.
E já perdi o nome ao som da morte,
ganhei um outro livre, que me sabe


quando me levantar e o corpo solte
o meu despojo vão. Em toda parte
o vento há-de soprar, onde não cabe
a morte mais. A morte a morte explode.


E os seus fragmentos caem na viração
e o que ela foi na pedra se consome.
Abandonei-me ao vento como um grão.


Sem a opressão dos ganhos, utensílio,
abandonei-me. E assim fiquei conciso,
eterno. Mas o amor guardou meu nome.

 

Poema de Carlos Nejar

 

 

 

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80 anos do nascimento de BENJAMIM SANTOS (1939-)

 

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(Benjamim Santos com a atriz Ângela Vieira)

 

Nem havia terminado o verão

quando pela primeira vez me visitaste.

Ouvi canto de cigarras

( assim pensei)

mas era minha alma aos gritos.

 

Foi de leve, quase em sussurro, que me falaste.

Acompanhei teu olhar pelas paredes cansadas,

pelos quadros, pelos livros.

Ah, te desejei!

mas mantive o desejo no coração secreto.

 

A tarde fechou-se em sombra, sem razão.

( Há tempos, eu te esperava)

Tão pouco te demoraste!

Saíste e sosseguei,

como quem descansa à beira de rio.

 

 

Poema de Benjamim Santos

 

 

 

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80 anos do nascimento de LENILDE FREITAS (1939-)

 

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SAUDADE

 

Saudade é lembrar seja o que for
de belo, na escassez em que se esteja
no pouco acrescentar e até repor
se a alma permitir que assim seja.

Saudade é voar, mesmo em declive
ir longe com o olhar, igual condor
viver do que em nós ainda vive
sem nunca revestir-se do incolor.

E por fim quando tudo for distância
— varandas, redes, luas e telhados —
no pátio iluminado de infância

Se a sombra chegar sem que a ouçamos
com seus passos macios, aveludados
a vida há de ficar no que cantamos.

 

Poema de Lenilde Freitas

 

 

 

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80 anos do nascimento de EUNICE ARRUDA (1939-2017)

 

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SOMBRA

 

 

Há uma mulher triste dentro da noite

com meus olhos

com meu rosto

com  minha angústia

 

Do dia impregnado de promessas

restou apenas uma mulher

Só mulher

 

Uma mulher ficou triste dentro da noite

triste

sentindo o frio gelando-lhe a vida

sem esperança

 

Há uma mulher triste dentro da noite

com  meus olhos

com meu rosto

com minha angústia

 

Oração e sono para ela

 

 

Poema de Eunice Arruda

 

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80 anos do nascimento de MARIA CARPI (1939-)

 

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Amor, essa força de não
ter força; essa paz

dando a paz; esse rosto
incandescente, nunca

lido, que se sobrepõe
aos demais e reluta

quando todos fenecem
e mais se aviva, encoberto.



Vou sair de mim, sair
da cidadela do corpo,
sair do corpo do mundo

para entrar. Distancio-me
de onde estou a chegar
perto do amor, onde sou.

Não fui eu a crescer
nessa maré de líquens
e assombro. Outro ser,

como o leito de um rio,
deslocou minhas carnes
e propósitos. Fui-lhe

ventre e sudário. Em mim,
amor morto e amor vivo.
Agora servem-me a ceia.

 

Poema de Maria Carpi

 

 

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30 anos do nascimento de DIEGO MENDES SOUSA (1989-)

 

 

 

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CANDELABRO

 

 

Dói-me o peito

Queima-me a alma

                            esta solidão reclusa

 

Não por querer viver

             nesta orla-névoa

       albicante como meu rosto

 

Se por medo da morte

 

Se por medo da perda

desta vida sob velas

 

Uma noite...

 

... Não serei solidão

 

não serei solidão

                         quando o candelabro

                                   for sereno

                                                  ao apagar-se

 

 

Poema de Diego Mendes Sousa

 

 

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Minuta de Diego Mendes Sousa