Primeiro Contato - Crônica de Diego Mendes Sousa

Rondon com indígenas

Percebi que a Funai é uma grande mãe e que os índios se sentem protegidos por nós, indigenistas especializados. Compreendi então, a minha missão.

 

 

 

A imagem pode conter: 6 pessoas, pessoas em pé, criança e atividades ao ar livre

 

 

 

PRIMEIRO CONTATO

 

 

Diego Mendes Sousa

 

 

 

A manhã passava da metade das suas horas. Recordo de ter olhado o relógio de pulso que marcava dez horas e vinte e dois minutos. Era quinta-feira, dia 13 de dezembro de 2018, e chovia.

Há exatos seis meses havia ingressado no Indigenismo. E nessa meia dúzia de tempo, ainda não havia viajado a cidade de Feijó, que fica a duzentos e tantos quilômetros de Cruzeiro do Sul, onde, felizmente, fui lotado pela Administração Federal.

A primeira visão foi o Rio Envira. A segunda, uma família Ashaninka que rumava para a sua pequena cabana à margem desse mesmo rio.

Na caminhonete, estavam Jair, nosso motorista, Ruama, colega de trabalho, Altair, minha mulher e apaixonada pela causa indígena, e eu.

De repente, Jair começou a buzinar com o intuito de atrair os indígenas, sem sucesso. Ruama abriu a porta do carro, e sem poder descer, por causa da lama envolta, começou a acenar para o pequeno grupo de índios.

Os Ashaninka ficaram paralisados, talvez por medo ou talvez pela circunstância de opressão e de discriminação que sentem, diuturnamente, pela força desumana do não índio.

Na realidade, pareceu-me que estavam acuados e não acreditavam que alguém pudesse sentir o desejo de conversar com eles.

De forma cinematográfica, os Ashaninka ficaram sem reação e, de maneira inesperada, porque tive a ideia de mostrar-lhes o colete da Fundação Nacional do Índio (Funai), que estampa um belíssimo cocar na sua logomarca, eles correram desesperados em direção ao veículo em que estávamos, como quem vê a miragem no deserto. Como quem vê Deus e a sua redenção.

Percebi que a Funai é uma grande mãe e que os índios se sentem protegidos por nós, indigenistas especializados. Compreendi então, a minha missão.

Quando chegaram mais próximo, vi três crianças tímidas, sujas e tristes, e quatro adultos, sendo dois homens e duas mulheres, e uma delas, bem idosa.

Perguntei o que tinham para comer e a mais velha levantou uma sacola branca de supermercado com um peixe miúdo, dentro.

Aquilo, apenas aquilo, seria o almoço das sete pessoas e mais nada.

 

 

Crônica de Diego Mendes Sousa

Fotografia de Diego Mendes Sousa