Alinhavos de Lina Tâmega Peixoto - No Tempo da Casa e do Quintal

Diego Mendes Sousa e Lina Tâmega Peixoto, uma voz cristalina na poesia do Brasil.

Lina Tâmega Peixoto (1931-) está em sua maturidade enquanto artesã da palavra, na plenitude criativa, onde a sensibilidade atropela a razão, conseguindo alinhavar não somente o tempo que retrograda à casa da infância, mas também conduzindo o leitor por suas portas imaginárias, por suas cantigas soluçadas de esperança, por sua linguagem de inocência e de raras metáforas, por seu quintal ardendo manhã, através de poemas estéticos e plásticos, ora rígidos, ora comoventes.

ALINHAVOS DO TEMPO (2018) de Lina Tâmega Peixoto apoia-se nas grades enferrujadas de um passado que vem à tona, trazendo as folhas da memória, a bailarina do criado mudo, o silêncio dos bichos que se perderam nas amplas tardes vividas, o barulho da torneira na claridade do dia, o cheiro das frutas de ontem, o milho e as batatas na panela, todos os artefatos da nova aurora que levaram essa autora mineira, grandíssima poeta, a voltar, a retroceder, a se mover inventiva, para renomear tudo, com a força da sua saudade, com os olhos do seu lirismo sem par, duradouro.

Fico vislumbrado com tantos recursos visuais no movimento interno dos seus luzeiros emotivos e fecundos. Diz Lina Tâmega Peixoto: "Peço à casa me carregar nos ombros." Verso cintilante, que domina a simbologia filosófica, de refletir e de revelar, aturdindo o âmago, que faz relampejar a casa que cada um guarda dentro de si.

Os poemas de Lina Tâmega Peixoto são fotografias bem batidas, retiradas do colorido de uma visão em preto e branco, anterior ao pensamento, porém nítidas, rebuscadas, complexas, enxutas, às vezes chuvosas, às vezes chumbos de peso misterioso, às vezes escuras e até mesmo obscuras, mas que sabem aviar borboletas, joaninhas, pássaros, lagartixas e cinzas.

Lina Tâmega Peixoto expressa em seus jardins anímicos, os clarões de quem cultiva o peculiar domínio de mergulhar nas sombras do chão. Eis a sua maior virtude: ser intelecto de rosas, a reativar lembranças, solidões e espelhos do efêmero, vitrais sangrentos da sua mão eterna.

 

 

Não é longe.

Basta empurrar de leve o portão

para que enflore o jeito

junto

ao espinhal da varanda

às taiobas amputadas pelas tatuagens das lagartas

à brisa a acotovelar os favos da baunilha

às lavas do fogão de lenha a folhear de cinzas as panelas

à fartura do tempo a encharcar de fungos as roseiras.

 

Gotas de água medram na terra

como restos findos de um rio

e escorrem lentas entre barcos

disfarçados em folhas.

Formigas, cogumelos,

ervas e grilos

abrigam-se sob cacos de telha

para que a água do regador

venha cabisbaixa em sua fúria

e não alveje a criação do mundo e seu naufrágio.

 

Há quinquilharias de tantas coisas

nesta manhã estufada de infância

que reúno em contritas histórias

a grácil deformidade deste paraíso.

 

Este, o meu quintal.

Variação de mim.

 

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Quando menina

deitava no jardim de minha casa

para olhar a grama crescer

como se um dardo em suave alvoroço

se mudasse em haste

a palavra guardada do pensamento

florescesse na pronúncia da infância

os membros do sonho acordado

tiritassem à luz da sombra

arranhasse o ar com fitas finas

ou fosse rastro verde da tarde.

 

Ah, me lembro agora!

Era como se um oceano de pássaros

deixasse cair ali

as folhas das asas.

 

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Ah! Quem me sonha esta noite

e desnuda meus seios como os meneios dos astros?

 

A quem pertenço derramada no povoado do tempo

a urdir a solidão das gentes em deslumbrantes imagens?

 

Ah! Quem me inscreve entre palavras e canto

sob frágil fragrância de rumores?

 

Quem faz de mim uma poesia

nascida de pedaços do mundo e do ofício de menina?

 

Quem me movimenta em vertigens e astúcia

e entrelaça o cair da estrela ao furor das asas?

 

Ah! Quem amarra meu corpo à sua linguagem

e me veste de mordeduras?

 

Quem?

 

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O vento escorre no costado da escada

e esfrega e enxuga os galhos

que se curvam em alvoroço.

Sacode o cheiro morto da goiaba

como um touro de ancas lanhadas de vermelho

a golpear as bandeiras das moscas.

De repente, cai no chão

em grossas aspas de pó.

E não mais abre as portas.

 

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Imagem relacionada

Escrevo debruçada na mesa

como se alinhavasse

o espaço

aos atavios do ermo.

Preciso alvorecer o esquecimento

empilhado na estante como um livro

em que se vai lendo lenta

a flora da alma imaginária.

 

Enquanto vou tangendo de dádivas

as vozes

e ser o silêncio um horrível

escarcéu recomposto

a palavra cai na água do copo.

Já não é pedra a memória.

 

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Já não me pertence o vozerio

alto e claro do coração

atado à clara cilada da fala.

Um fim de fio enluva a tarde gasta

a uma outra de amplidão juntas.

Áureos e delicados vértices do amor profundo

fecham-se nos êxtases de lunar detrito

vindos da mineração do contentamento.

 

Esgarçada por tanto desdobramento

pelo que sou em presságio e intento

bebo a água tingida de silêncio

e levanto a sombra e deito o corpo.

 

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O tempo finge

que a si próprio fecunda

lonjuras sem-fim.

 

O tempo esculpe

turvos signos atravessados de brilho

- ossos do céu

que o lanço da mão segura -

 

Vou-me profunda no largo instante.

 

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peço à casa me carregar nos ombros

 

 

                    

 

                        do verso

                rio Pomba como afluentes do pássaro

                                 ao

                as folhas das asas

 

 

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A casa esconde-se nos desvãos de Minas

ao olhar que a desvela.

Mente ser remendada e curva

mesmo que a porta se abra

em florida velhice.

Içada dos retratos

agarra-se aos rés-do-chão

com vestido de sianinha branca

e sapatos apertados no verniz.

 

Desenredada das nuvens

a lua se joga no chão da sala

e agoniza.

A visita abre as arcas

cheias de sonhos virados de borco.

 

Persiste o exílio e outros longes

na indormida herança desta casa

que narcisa-se em algo e água.

 

 

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Volteio o corpo

e a saia abre-se em varanda.

Os fardos da ausência

amontoam-se na sala

e preenchem a mudez da vida

com os retratos de olhares e sorrisos sem corpo

esmaecidos pela dormência do tédio.

 

Cintos de grama

afinam o caminho para a porta.

Junto à parede, um halo de jasmim

empoça uma rugosa claridade

e deste paraíso da manhã alastram

as mímicas do canto do galo nos ares.

Nas distâncias escondidas no quintal

incrustam-se lonjuras

e alguns arredores de mim.

 

Meu coração, ocioso e grande,

se quebra à toa

que peço à casa me carregar nos ombros.

 

 

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Foi perto de junho que o fio

arborizado de flores de lumes

veio como quem é lua

em outra luz nos olhos

e fez-se laminados pedaços

de vãos de amor no mundo.

 

Foi perto de junho, quase esqueço

o instante em que mordiscando a manhã

os cordões de ardência dos talos de abraços

mudaram-se nos brilhos rubros do coração.

 

Foi por dentro de junho.

 

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O desejo

com seu cipó de aroma

ata o pensamento da mulher

que vagueia incerto e casto

nas intransitivas seivas do excesso.

 

Pelas grenhas da graça

um homem

semelhante a Adão

deita na cama.

 

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Bojudo

o ar dentro do vidro

vai soprando o vazio

e abre a artéria do pássaro.

A tensa crepitação do corpo

reparte a forma dividida

em bico, olhos e plumagem branca.

O talo do pescoço se dobra

e arfando as penas

equilibra-se

na quietude acobreada da lama.

 

Costura o voo em sua volta

e pousa na jarra.

 

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Rubras são as rosas

roçadas pelo soar das horas

suspensas pelos tombos

que o aroma sofre

desde cima até embaixo.

 

Não há lugar sombreado

em qualquer dia e vário instante

que não tenha luz banhada

de rijas nódoas de lágrimas.

 

Para que o amor não floresça em escombros

e se reparta em lumes a memória

a multidão da vida se faz

na voz clara e farta do efêmero.

Feito à mão.

 

 

 

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OUTRAS OBRAS ANTERIORES DE LINA TÂMEGA PEIXOTO:

  • Algum dia.
  • Entretempo.
  • Dialeto do corpo.
  • Água polida.
  • 50 poemas escolhidos pelo autor.
  • Prefácio de vida.
  • Os bichos da vó.
  • Entre desertos.

 

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Poemas de Lina Tâmega Peixoto

Minuta de Diego Mendes Sousa