Carlos Nejar - O Demiurgo faz 80 anos de vida!

O notável Carlos Nejar: soberania, inteligência e elegância definem o Poeta Maior do Brasil.

Raramente encontramos na Literatura Nacional um escritor que agrupe todos os elementos que constituem os Gênios. Posso fazer chover no molhado, como ensina a sabedoria popular, mas a produção artística de Carlos Nejar, em quantidade e em qualidade, por si só, afirma o meu permanente entusiasmo pela caudalosa dicção do grande Poeta gaúcho, eleito no passado como "O Poeta da Condição Humana".

Esse humanismo que os críticos de outrora encontraram na arte literária de Carlos Nejar, ratifica-se no imenso ser humano que glorifica a sabedoria nata do meu homenageado.

Ele festeja os seus oitenta anos de vida neste 2019, mais preciso, neste presente Janeiro de chuvas, que estaciona no dia 11.

Expresso aqui o orgulho e a satisfação estética de há tempos ter travado diálogo com a extraordinária verve intelectual de Carlos Nejar, que me fez ampliar a visão sobre todas as coisas deste mundo, bem como uma louvável cosmovisão sobre o invisível, o mistério, o insondável e o eterno.

Carlos Nejar faz parte de uma linha poética conceitual vasta, que abarca Deus e a profundidade da beleza, a procurar a incisão dos místicos como Murilo Mendes, Gerardo Mello Mourão, Jorge de Lima, José Santiago Naud, Dantas Mota, Armindo Branco Mendes Cadaxa, Luiz de Miranda, Cláudio Murilo Leal e até mesmo Mário Faustino.

Jovem em seu caminho de criador, a definição de Demiurgo para Carlos Nejar cairá sempre bem. Carlos Nejar opera a ressurreição da palavra. Seus textos, ou melhor, os seus melhores livros, como Os Viventes ou A Engenhosa Letícia do Pontal, provam que os ensinamentos épicos  -  de todos os tempos - desembocam no levante de um encanto que desafia a harmonia de tudo que já foi escrito. Permanece em Nejar, Cervantes e Goethe, de quem herdou o brilhantismo.

A obra de Carlos Nejar é um autêntico patrimônio nacional: poesia, romance, conto, crônica, fábula, ensaio, crítica literária, traduções, literatura infantil, teatro, enfim, a gama que nos lega é luxuosa.

Neste ano, como parte das comemorações em torno da luz Nejariana, sairá, da minha lavra, a fotobiografia, com força de crítica, intitulada CARLOS NEJAR - O VENTO QUE SE ALONGA, que venho afinando, desde 2013, em leituras e pesquisas sobre esta alma pampiana.

Carlos Nejar merece a coroação pela seriedade da sua Literatura visionária. Ele mesmo, um Taumaturgo de estro elevado.

 

Aqui ficam as coisas.
Amar é a mais alta constelação.

Os sapatos sem dono
tripulando
na correnteza-espaço
em que deitamos.

As minhas mãos telhado
no teu rosto de pombas.

Os corpos
circulando
na varanda dos braços.
É a mais alta constelação.

 

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Não venham com razões
e palavras estreitas.
 
O que sou sustenta
o que não sou.
Por mais grave a doença,
a dor já me curou.
 
E levo no bordão,
o campo, a cerca,
as passadas que vão,
o rosto que se acerca
na rudeza do chão.
 
O que sou
é dar socos
contra as facas cotidianas.

E é pouco.

 

 

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Não quero deliberação.
 
Os conceitos são mortos,
os filósofos rotos
e a ideia de Deus
gerou o exílio.
 
Não quero deliberação,
nem contatos inócuos,
empurrando o dia.
 
Não quero deliberação.
Quero a vida
sem refrão ou bandeira,
companheira.

 

 

 

 

 

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Eu e o tribunal
e sua fria mudez.
O juiz no centro e no fim,
o rosto girando em mim,
farândola.
 

Vim, com a escura coragem,
de um réu antigo e selvagem.
O que me prendeu,
lutou comigo e venceu.
Vacilava em me reter,
mas eu que entregava,
por saber que minha chaga
estava exposta na lei.

Giram as mãos
e os pés atados. O juiz
é um vulto que eu mesmo fiz
com meus esboços. O juiz
no centro, no fim,
no tribunal onde vou,
no tribunal donde vim.

E assim me condenei
a permanecer aqui.

 

 

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O mundo está pesado de palavras futuras,
que invadem casas, ruas e quintais;
o mundo está pesado de signos e escuros,
onde dormem ladrões.
 
O mundo está pesado de palavras futuras
ou verdades escritas;
é preciso gestos que fustiguem
e marquem sobre o dorso a passagem
do mar.
 
O mundo está dormindo;
é preciso gestos que despertem
e venham desnastrar os cavalos

da távola das árvores.

 

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O réu,
dobrado como vaso,
onde as urtigas se calam,
desdobrado o peito,
tábua de corais e ressacas,
vem depor o grito
e a sentença merecida.
 
Pagou o imposto exigido
de existir, não existindo.
 
Foi deposto em reino morto,
sem apelação punido.
O réu,
com os sonhos e os pés vergados
e os desvãos,

vive de estar embarcado.

 

 

 

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Vem o vento,
vai silvando.
O vento é quando?

É depois de ter amado.

Vento cervo,
puro vento,
se mistura
com os cedros,
ultrapassa o mirante,
se mistura
a outro tempo.

Vento quando?

É depois de ter lutado.

 

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Ainda serei eterno.

Não sei quando.

Sei que a sombra se alonga

e eu me alongo,

bólide na erva.

 

Ainda serei eterno.

Tenho ânsias cativas

no caderno. Cortejo

de símbolos, navios

e nunca mais me encerro

no meu fio.

 

Ainda serei eterno.

O mês finda, o ano,

o recomeço.

E o fraterno em mim

quer campo, monte, algibe.

Mas sou pequeno

para tanto aceno.

 

Metáforas me prendem

o eterno

que se pretende isento.

 

Numa dobra me escondo;

Noutra, deito.

Os nomes me percorrem no poente.

Sou sobrevivente

de alguma alta esfera

que saia de si mesma

e é primavera.

 

O eterno ainda será viável

como o sol, o dia,

o vento;

misturado ao que me entende

e transborda.

Misturado ao permanente

que me sobra.

 

 

 

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Dos deuses não espero soldo, nem reses.
De ganho, só meus proventos:
de ganho, o que esbanjo ao vento.
De ganho o que cava a pá.
De ganho o que faz a paz.
De ganho o que a morte dá,
dia dia, ano e ano.

Neles não ponho linhas ou malhas,
como a peixes.
Ponho luz e ponho tento;
nenhum lucro lanço em dados.
Qual a réstia que os distingue?
Qual a torre? Qual o sino?
Vestem blusas, vestem nuvens?
São humanos ou divinos?
De que tempo o seu declive? De que sarro?

Dos deuses não espero soldo, nem reses.
Só lhes ganho o não rendido,
o obscuro, o solo virgem,
onde parte deles vive
e outra parte se redime.

 

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Nossa sabedoria é a dos rios.

Não temos outra.

Persistir. Ir com os rios,

onda a onda.

 

Os peixes cruzarão nossos rostos vazios.

Intactos passaremos sob a correnteza

feita por nós e o nosso desespero.

Passaremos límpidos.

 

E nos moveremos,

rio dentro do rio,

corpo dentro do corpo,

como antigos veleiros.

 

http://www.antoniomiranda.com.br/poesia_brasis/rio_grade_sul/img/carlos_nejar63.jpg

 

 

 

 

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Minuta de Diego Mendes Sousa

Homenagem a Carlos Nejar

Poemas de Carlos Nejar

Capa de livros de Carlos Nejar