Meu Pai Completa Oitenta Anos - Crônica de Fabrício Carpinejar

Carlos Nejar e Fabrício Carpinejar

Homenagem de Fabrício Carpinejar ao seu pai Carlos Nejar, escritor importante da poética nacional.

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MEU PAI COMPLETA OITENTA ANOS
(Foto: ele já está com o meu presente embrulhado em frases de guardanapo. Só pode abrir na sexta, quero ver se ele cumprirá a promessa)

  por Fabrício Carpinejar



Um pouco antes de entrar no palco comigo, meu pai que é poeta e se apresentava pela primeira vez no teatro, cochichou em meu ouvido:

- Sabe o que eu queria ser quando criança? Ator! Precisei ter um filho para me dar coragem e devolver os sonhos de minha infância.

Entrei em cena com olhos aguados.

Meu pai completa 80 anos nesta sexta (11/1). E ele poderia estar acomodado detrás de uma escrivaninha depois de seis décadas de literatura, mas decidiu enfrentar a ribalta e interpretar os seus versos. Não existe prova maior de saúde do que estreias na velhice.

Carlos Nejar é hoje o meu menino grande. Irmão de Vicente, 16, e de Mariana, 25, apesar de também acumular a função de avô deles. Sei que a maior recompensa após a apresentação são duas bolas grandes de sorvete: creme e morango. Sei que ele tem a sua gravata da sorte e não abre mão dela em situações especiais. Sei que ele me abraça com a cabeça, colocando a ponta de sua testa na minha. Sei que ele escreve a mão para depois passar a limpo no computador. Sei que ele vai tossir quando gargalha muito tempo. Sei que ele tira primeiro o sapato direito para em seguida descalçar o esquerdo. Sei que ele coleciona cartões de visita. Sei que ele prefere café passado a expresso. Sei que ele espia pela janela quem tocou a campainha antes de ir para a porta. Sei que a sua grande liberdade é deixar a barba por três dias.

Acho que eu o amo melhor porque sei um monte de coisas que não precisava saber.

No fim do espetáculo, eu fui no ouvido do pai e disse:

- Você pode ainda ser tudo o que quiser.

Poesia de Pai para filho. Theatro São Pedro. Porto Alegre (RS). Dias 24 e 25/1, 21h. Ingressos em:
http://www.teatrosaopedro.com.br/eventos/porto-verao-alegre-poesia-de-pai-para-filho-rs/


Crônica de Fabrício Carpinejar

Minuta de Diego Mendes Sousa