

“É fora de dúvida que o Estado do Piauhy é o menos favorecido da União sobre qualquer ponto de vista que procuramos considerar. Não há com regularidade comunicação marítima com os demais estados da Federação, e até hoje não possue estradas de ferro”.
“... sobre as exportações, ellas tem que soffrer actualmente as conseqüências funestas da falta de um porto e meios de transportes, o que muito tem contribuído para retardar o desenvolvimento”.
OBS: Trechos do relatório da gerência do Banco do Brasil em Parnaíba, referente ao exercício do primeiro semestre de 1920.
O relatório do qual o texto acima foi extraído acaba de completar 90 anos. O papel original está surrado, em frangalhos. E se conseguimos visualizar as palavras, o foi com muito esforço. A preocupação em conservar o documento também é motivo de nota, porque o assunto nos remete para muitas considerações e reflexões.
Não fossem as diferentes grafias usadas na época, poder-se-ia dizer que tal carta era recente, pois os problemas apresentados continuam na moda. Em outros pontos do relatório, o administrador local reclama da falta de funcionários, que, segundo ele, tem contribuindo, inclusive, para o atraso do aludido relatório.
Se em 1920 reclamávamos de porto, estrada de ferro e meio de comunicações, estamos caminhando para em 2020 estejamos reclamando as mesmas coisas e mais...O aeroporto. Ah! O Aeroporto! Segundo um decano do empresariado local, quando da solenidade de inauguração do alongamento da pista asfáltica, já teriam sido vinte e nove inaugurações do terminal local. Muito legal, não fosse trágico.
Por ocasião das últimas eleições, profissionais da imprensa andaram criticando os nossos representantes na Câmara e no Senado Federal. Os queixumes se referiam ao fato de que os ilustres parlamentares se aliam ao “Comandante em Chefe” – leia-se o presidente da república – e a ele obedecem cegamente, alinhando-se com a política, a economia etc etc., contentando-se com míseras inclusões de emendas no rico Orçamento Geral da União.
Eleições e paixões eleitoreiras à parte, com o atraso tecnológico de nosso estado, notório, crônico e histórico, não dá para dizer diferente. A coisa se complica ainda em relação à Parnaíba, porque há mais de quarenta anos temos, continuadamente, representantes da terrinha no Senado Federal. E por vários mandatos, dois representantes. Dava para dar uns gritos por lá e trazer alguma coisa de peso, nisto a gente tem que acreditar.
Em 1920 não tínhamos porto sem estrada de ferro. O porto que existiu, na verdade um arranjo que quebrava o galho na antiga Amarração, hoje Luiz Correia, não foi modernizado. Virou terminal de pesca, hoje de poucos peixes. Parnaíba não ficou sequer a ver navios, porque os navios não podiam atracar no Porto das Barcas.
A estrada veio... e se foi. As locomotivas a vapor não tiveram sucedâneo. Com a pavimentação da BR 343 e o lançamento de ônibus da antiga Marimbá, os vagões não transportaram nem pessoas. As cargas também migraram para as carretas, ágeis e possantes e...caras. Mas é assim que a coisa funciona.
Tem jeito Doutor? Tem sim senhor!
Por cinco anos fui administrador do Banco do Brasil em Parnaíba. Em razão da função participei de inúmeras reuniões com líderes e comerciantes da cidade. Regra geral, tais encontros se resumiam em lamúrias e recordações do tempo que tinha aquilo e aquilo mais. De bom somente o coquetel, sempre farto e delicioso.
Moço, quem vive de passado é professor de história e jornalistas do “OPiaguí”! Empresários transformam o passado – sem esquecê-lo – em negócios, empregos e lucro!
Vamos parar de lamúrias e fazer o que nunca foi feito. Cuidar da infra-estrutura do município! Dinheiro federal tem de sobra. Faltam projetos bem feitos e parlamentares para defender, em uníssono e harmonia.
Do contrário, vamos chegar ao ano 2020 e nossos gerentes vão somente escanear os relatórios de cem anos atrás, apondo um carimbo cruzado: “confere com o original”. E mandarem para a matriz, porque faltam funcionários e eles têm mais o que fazer.
Ponto final.
Altevir José Esteves
Advogado, escritor e professor da UESPI.
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