

Um estranho me ligou dando notícia de um acidente envolvendo o Israel. Aqui no Pindorama tudo é perto e tudo é longe ao mesmo tempo. Temos banco, supermercado, delegacia e farmácia, que embora em outros bairros, mas termina ficando relativamente perto.
- Diga!
- Israel?
- Aqui não tem ninguém com esse nome!
- Não é 5444.0055?
- É sim, mas não tem nenhum Israel, moça!
Desliguei zangada. Só podia ser coisa dessas concessionárias de celular. Umas drogas! Ou tinha errado o número? Visualizei o número discado. Estava certa. Tentei de novo, podia ter cruzado linhas.
- Alô! – respondeu o bruto.
- Por favor, é urgente! Passe o telefone pro Israel!
- Já lhe disse, moça! Não é dele!
Desliguei angustiada. Pensei em ligar para o Hospital Dirceu Arcoverde, mas não tenho o número de lá. Não possuímos telefone fixo e por isso não nos distribuem catálogos. Liguei o 102 e finalmente peguei o número. Disquei. Sempre ocupado. Repeti a chamada várias vezes, e nada. Poderia chamar um moto táxi, mas não tinha crédito no celular. Saí para a Rua. Na segunda quadra alcancei a Samuel Santos. Passou uma moto.
- Moto táxi! – chamei desesperada.
O sujeito olhou de lado, fez meia volta e parou.
- Hospital do Dirceu, correndo! – disse-lhe montando e segurando o capacete na curva do braço. Geralmente não se colocava os capacetes, mesmo sendo obrigatórios e trazidos presos à garupa por ligas de borracha. Achavam-nos mal cheirosos, devido ao suor dos muitos passageiros que os utilizavam. Suspeitava-se também de piolhos e caspas, de quem sabe Deus tenha portado.
Desci rápido, entregando as moedas miúdas que o taxista recebeu sem contar e logo as jogou na pochete que sempre trazia à cintura. O hospital estava bastante agitado. Gente ia e vinha, uns chorosos, outros assustados, outros com rostos tensos. A frente do prédio muitas motos estacionadas, além daquelas que fazem ponto no local. Poucos funcionários transitavam pelo corredor. Procurei notícias num balcão onde apenas um policial militar girava sentado em banco alto, desses de trabalho.
- Por favor, dê-me notícias das vítimas do acidente de moto!
- Qual deles, moça? São tantos!
- Da Rua Anhanguera! Morreu alguém? – falei quase gritando.
- Morreu sim, um moto taxista.
- Onde está?
- No necrotério. Lá nos fundos. Mas lá não pode entrar agora. Ainda aguarda a preparação do corpo.
- É meu namorado! Quero vê-lo agora!
- Não pode, moça. Só depois que o médico legista dá a certidão de óbito.
- Qual é o médico de plantão?
- Dr. Joaquim Correia.
- Quero vê-lo!
- Não pode, moça. Não chegou ainda!
- Não pode ser! Já passa de meio dia!
- Pode, moça. Médico é médico. Os médicos, como os juízes, só trabalham quando querem...São cheios de direitos...
Assenti calada. Precisava de alguém conhecido para facilitar as coisas. Precisava ver o corpo de Israel. Não queria acreditar que era ele. Israel era bamba na moto. Costumava andar a altas velocidades, comigo na garupa. Não gostava de dar cavalo de pau nem rabos-de-arraia. Corria muito, desviava de obstáculos, de outros veículos e contornava ruas com inclinação de moto velocistas. Não vacilava e eu confiava muito nele. Brigava, dava-lhe beliscões e ele punha-se a rir. Eu também gostava e dava risadas enquanto meus cabelos esvoaçam ao sabor do vento praiano. Israel fazia isso sempre que descia a Avenida São Sebastião, puxando o máximo de velocidade, quando o agarrava firme pela cintura, rosto colado em seu pescoço, sentido o seu sangue quente descer pela aorta e seu perfume misturado com o suor característico. Ao chegar ao Juizado Especial, dava uma freada brusca, por causa da precariedade eterna do calçamento naquele cruzamento, quando meu corpo comprimia-se ao seu, unindo-nos pela ação da física.
Enquanto aguardava e pensava no que fazer, chegaram mais pacientes. Entravam mesmo pela frente, os condutores pedindo passagem, abrindo caminho com os braços enquanto o paciente gemia e respirava ofegante.
- De onde vem esse? – quis saber o policial.
- Pinheiro Machado, lá do Mirante! – respondeu o homem que segurava a parte traseira da maca, quando já dobrava o corredor.
- Moto?
- Atropelado por uma delas!
- São dez só hoje – pensou alto.
- As motos vão acabar com o mundo! – respondeu alguém no meio das pessoas que aguardavam no saguão.
Saí dali e fui ao pequeno jardim que fica na frente do prédio. Chorei em soluços. Israel se foi. Estava só, sem ele, sem notícias, sem ver corpo, sem mais ninguém. Quantos planos! Formatura, casamento, uma vida! Uma vida perdida. O que fazer sem Israel?
Não sei quanto tempo fiquei ali, parada, sentada num banco de cimento. Fui despertada pelo movimento de uma ambulância que chegou e não trouxe nenhum doente. Ao contrário, levaram alguém que estava no hospital. Eu estava arrasada e não tinha ânimo dos curiosos, para saber de quem se tratava. Ora! Com tantos acidentes e acidentados, interessava ver quem sequer conhecia! Depois, aqueles pedidos e ordens de “afasta!” afugentava quem tivesse o mínimo de bom senso. Olhei as horas no celular. Passavam de duas da tarde. Levantei-me e fui falar com o policial. Não era mais ele. Havia uma mulher gorda, vestida de branco e um semblante cansado.
- Por favor, dona! Preciso saber notícias de uma vitima de moto que deu entrada aqui hoje.
- Nome dele!
- Israel – pode ter morrido na Anhanguera.
- Um momento, vou saber.
Saiu pelo corredor e voltou poucos minutos depois.
- O que você é dele?
- Noiva.
- Quer mesmo que ele morra? Ou você tem premonições?
- Larga de brincadeiras de mau gosto! O que aconteceu com ele?
- Foi levado há pouco tempo para Teresina. Quebrou-se todo e não tem como tratá-lo aqui. Não viu uma ambulância sair ainda agora?
- Vi – respondi incrédula.
- Justamente. Ao que parece, seu noivo, quase defunto, foi nela.
Não sabia se me alegrava ou se chorava. Que burra que fui. Então não tinha morrido? E o corpo que aguardava exame?
Voltei a perguntar:
- Dona, e um corpo que ao meio dia estava no necrotério, de quem era?
- Não é de seu Israel. É de outro motoqueiro, de outro acidente.
Por Dilma
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