

Dona Neuza não me contou. Mas voltei para casa mais rápido do que o planejado por causa da roupa suja de café. No caminho para o bairro Pindorama, visualizei do rosto de Maria Creuza e não pude deixar de lembrar-me dos velhos tempos. Sim, era ela mesma!
Como poderia ter esquecido. Lembrei-me, no entanto, porque Dona Neuza disse-lhe que era sua vizinha. Claro, tudo bem claro!
Maria Creuza e dona Neuza tinham história em comum. As duas moravam no Cheira Mijo. Só que do lado pior, na Rua da Bosta, no baixo meretrício. O local que ficava entre a Rua Barão do Rio Branco e um braço do Rio Igaraçu, que voltea a cidade em direção ao bairro do Taboleiro, passando antes pelo local que aonde veio a se erguer a indústria Cobrasil e alimentando a Lagoa do Bebedouro. Mas se a Rua Barão do Rio Branco era apenas uma via sem calçamento, de areia solta, onde os poucos veículos que se aventuravam a trafegar atolavam na areia ou na lama do inverno, conforme fosse a época do ano, a Rua da Bosta era uma viela de mato, um caminho até o córrego. Pelo local desviávamos de fezes humanas, excretadas ali mesmo ou despejadas dos urinós das raparigas, logo ao amanhecer.
Minha família morava na rua, hoje pavimentada, cheia de vida. Mas nossa diversão era mesmo no rio. Desviando das embarcações que também ali ancoravam, pulávamos de uma a uma ou simplesmente mergulhavam nas águas turvas, indo para o outro lado, catar frutas silvestres e caçar passarinhos com estilingues. Passar na rua das raparigas não nos custava nenhum constrangimento. Até falava com as mulheres, banhávamos juntos no rio. Éramos crianças, mas não havia advertência ou repreensão pelo convívio.
À noite, no entanto, recolhíamos em nossas casas e não se falava mais naquelas paragens. Homens passavam pela rua, de bicicleta ou a pé, dobravam a esquina e se dirigiam às casas das moças. Outros seguiam até o cais, onde outros pontos de prostíbulos existiam mais animados, mais ricos, para onde acorriam aqueles de maiores posses. Ali a diversão era garantida, porque se podia pular de bar em bar, pesquisando e selecionando a melhor companhia.
Na mesma rua, Castelo Branco, bem perto da Escola José Narciso, havia outro cabaré. Mas esse era de luxo, da alta granfinagem parnaibana. O Cabaré Chão de Estrelas era freqüentado por homens de terno e recebia conjuntos musicais e cantores de nível nacional.
A última opção para a diversão do sexo pago era o “Recanto da Saudade”, também conhecido como Munguba, que ficava na rua dos vareiros. Ali era concentração de barqueiros que movimentavam suas embarcações com o uso de uma vara de madeira. Tocavam o instrumento no chão abaixo das águas impulsionando para trás ou para frente, fazendo o transporte entre as margens do rio. Homens fortes e rudes, acostumados ao trabalho árduo de dominar as águas do Igaraçu desde o tempo em que não existia, sequer, o barco a vapor. Uma vez de folga, quando a noite caía, dominavam os cabarés, bebendo, jogando, namorando e, sobretudo, brigando, brigando muito. As diversas facções de suas comunidades e bairros, que a princípio eram uma só, divergiam por vários motivos e o resultado eram combates a socos e facadas.
Mas Maria Creuza e Neusa, meninas que cresceram ajudando suas mães a levar roupa no grande espaço nas margens do rio, precocemente deram-se à vida do meretrício, não por vontade suas, mas pelos destratos da vida. Neusa apaixonou-se por um estudante da União Caixeiral, filho de gente rica da cidade. Aquela velha história de príncipe encantado e gata borralheira. Depois que se encontraram à noite, por trás do grande armazém de madeira, que fizeram e que aconteceram, nunca mais se viram. O rapaz foi estudar em Recife e Neusa viu sua barriga crescer, parir um meninão e depois não mais sabia o que fazer. Sua mãe criou o bebê e a moça, analfabeta e sem perspectiva alguma, deu-se à prostituição, porque era assim mesmo que tinha que ser.
Maria Creuza casou-se com um pescador. Tudo decente, com direito a véu e grinalda na Igreja São José. Mas durou pouco. Zé Pedro, seu marido, numa discussão pesada com outro barqueiro, por causa de uns peixes que desapareceram, levou a pior. Zé foi morto com uma facada de marinheiro, um golpe só, que lhe atravessou o peito largo. Creuza ficou só, não tinha filhos e até tentou levar a vida lavando roupa na beira do rio, no cais. Mas durou pouco. Seus braços magros e seu corpo franzino não agüentaram o pesado serviço de lavar redes e calças de gabardine. Passou a trabalhar na casa de um e de outro, ganhando muito pouco, que de longe dava para comprar a feira da semana.
Um dia, ao retornar do trabalho numa casa da Rua Duque de Caxias e quando passava em frente ao cabaré Chão de Estrelas, um homem de terno lhe falou:
- Olá moça! Trabalha aqui? – arriscou de pronto.
- Não senhor, estou de passagem – respondeu tímida.
- Ah! Sim – decepcionou-se o senhor – para em seguida aventurar-se:
- Mas se trabalhasse, ganharia muito dinheiro!
Maria Creuza, surpreendida, quase gritou:
- O quê? Me respeite, moço?
- Não disse nada demais. É apenas uma questão de admiração. Se trabalhasse aqui, ganharia dinheiro. Se não trabalha e nem quer isso, o que eu disse não lhe atinge.
A moça considerou. De qualquer modo o desconhecido não lhe feria. Afinal não tinha compromisso, não tinha sequer namorado, era viúva e pobre. Trabalhando de domingo a domingo, de sol a sol, praticamente pelas refeições que comida. Se quisesse, poderia fazer ponto por ali nos finais de semana, à noite, não prejudicaria sua reputação. De qualquer sorte, não era a primeira da família a dar por dinheiro.
Afastou-se do homem sem se despedir. Continuou a vagar seu pensamento enquanto caminhava, agora devagar e sem pressa, procurando o melhor lugar para passar pela rua esburacada. E se sua mãe soubesse, considerou, nada poderia fazer. Há muito tempo sua mãe não lhe ajudava, desde que se casara com Zé Pedro. Sem filhos para sustentar, sem estudos, o que estava esperando? Que outro pescador lhe procurasse para casar? Ora, aqueles brutamontes queriam mulher de qualquer jeito, pagavam por dez minutos e já voltavam para suas cachaças e brigas.
E assim Maria Creuza iniciou-se na noite. De finais de semana para a diária foi questão de tempo. No Chão de Estrelas nunca pisou, porque os proprietários alegaram que estava cheio de mulheres, mas na verdade é que Creuza não atendia aos dotes de beleza necessária para trabalhar no lugar. Pernas magras e rosto seco não se enquadram nos gostos dos ricaços de Parnaíba. E foi para a beira do rio. Anos depois, quando de mulher tinha só o nome, restou-lhe a Rua da Bosta, para onde só acorriam os ébrios degenerados e homens dos campos de carnaubais.
Por Zé Barros
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