

Aquela região que circula o Porto das Barcas sempre foi mesmo um encanto. Se pararmos um pouco e olharmos para os prédios que ainda se mantém, milagrosamente, de pé, não há como não mergulharmos nas reminiscências.
O telefone tocou ao meu lado, mas me demorei em atender. Caiu a ligação. Insistiu.
- Alô! – gemi
- Doutor Joaquim – respondeu do outro lado – o senhor vai atender no consultório hoje?
- Sim – a partir das 16:00h, pela ordem de chegada.
E desliguei antes que se aprofundassem no assunto. O sistema de atendimento pela ordem era coisa com a qual eu não concordava, no meu íntimo. Isso fazia com que as pessoas largassem todos os seus afazeres para se dedicar somente à consulta. A tarde inteira ficava pequena para essa gente. Aqueles que ficavam por último entravam nervosos no consultório, inquietos e mais doentes ainda, inventando males que exame nenhum detectava. Stress, puro e simples. Mas era assim mesmo que a maioria trabalhava. O médico não pode perder tempo algum, como no caso de se marcar hora certa e o paciente não aparecer. Ficaria momentos preciosos na ociosidade, perdendo dinheiro.
Um carro buzinou atrás de mim. Em seguida, outro e mais outros. Havia se desfeito o engarrafamento e eu era o primeiro de uma longa fileira de carros. Acelerei forte, fazendo o carro arrancar um pouco mais do que o necessário. Vi uma moto deitada, pneu dianteiro retorcido, cacos de vidro e lanternas pelo chão. Um pouco adiante uma mulher, encostada em seu veículo, mostrava-se entre chorosa e aterrorizada. A porta de seu carro estava bastante amassada, resultado da colisão lateral com a moto. Cinicamente, eu quis saber:
- Houve vítimas? – perguntei a um policial militar que fazia o levantamento para fins de ocorrência.
- O rapaz da moto bateu a cabeça e saiu machucado. Já foi levado pelo SAMU.
- Obrigado – disse de boca pra fora. Mas um acidente, mais acidentados, mais serviço pra mim. Quando seria que isso iria acabar, ou pelo menos, ter um controle?
Consegui uma vaga apertada que o flanelinha me indicou. Quando ia descer o celular chamou. Fiquei sabendo que precisavam de mim com urgência. Não sei por que usavam a palavra “urgência”, já que tudo no hospital é apressado, desesperado, de última hora, vida ou morte, mesmo que fosse apenas uma dor de barriga.
Rumei para o Bairro Piauí, onde fica o hospital. Não tinha nome mais próprio para o logradouro. Como o estado, o bairro é pobre, desordenado e em crescimento constante, por tudo isso, mal falado. Crimes banais, uso de drogas e prostituição, é uma constante. O bairro teve início a partir da estrada que sai para o Chaval, e dali para Fortaleza, e era uma continuidade da Rua Ceará, na verdade a própria estrada para o estado vizinho, começando perto do Balão da Guarita. Além da estrada, o bairro Piauí foi continuidade do bairro Pindorama, que extrapolou os limites do que viria a ser a Avenida Pinheiro Machado, marchando rumos à Lagoa do Portinho, para onde mais tarde o governo fez um prolongamento da Rua Caramuru, chegando lá por uma rua-estrada de calçamento poliédrico.
O hospital estava cheio, como sempre. Segui direto para a urgência. Sem dar explicações sobre atraso, falei com a atendente:
- Bom dia! Como estão as coisas por aqui?
- Como sempre, doutor! Muitos acidentados, crianças com problemas respiratórios, velhos hipertensos,
- Está ótimo. Enquanto for assim estamos com os empregos garantidos! Concorda?
- Perfeitamente, doutor.
- Este rapaz foi medicado? – disse-me dirigindo a uma maca onde tinha um rapaz cuja ficha o chamava de Israel.
- O Dr. Francisco mandou-o para a ortopedia. Ainda não o levei. Lá não tem quem faça os procedimentos relativos às suas costelas. Tem outras fraturas...
- Espere um pouco. Conheço este rapaz - disse enquanto contemplava o paciente – Israel, de quem você é filho?
- Zé Mário – falou ofegante.
- Zé Mário, o padeiro?
- Não é mais. Agora vende cuscuz de arroz na rua.
- Sim, eu sei.
Triste situação. Quem fora Zé Mário...
Por um instante pensei em deixar tudo como estava. A final, Israel era apenas um paciente com traumatismo no meio de dezenas de pessoas atendidas semanalmente no hospital e um entre centenas de doentes, assim considerados todas as demandas da região. Um óbito a mais ou a menos não alteraria a rotina do lugar. Não tinha relações de amizade com Israel, apenas o conhecia, por conta de seu pai. Afinal, Parnaíba não é tão grande assim. E é nessas horas que a gente conclui, forçosamente, que “na cidade todos se conhecem”, como costumeiramente se diz.
Poderia fazer alguma coisa por ele? No Dirceu Arcoverde, praticamente nada.
Mas foi aí que uma luz me veio. Lembrei-me de um amigo e colega, hoje investido em altos cargos no governo estadual. Estava na cidade em missão oficial e viajara de avião, um monomotor, que mal cabiam o piloto e um passageiro. Liguei para ele.
- Amigo – disse-lhe sem muitos cumprimentos – falou-me um dia que ligasse quando estiver precisando do nobre colega. Chegou o dia – e pediu “carona” para o paciente.
Mandei o filho de Zé Mário para a capital, com recomendações de ser internado e operado imediatamente no Getulio Vargas. O amigo ainda designou pessoal dele para acompanhar o paciente até a chegada de parentes, a serem notificados posteriormente.
Afinal, medicina no interior se faz com conhecimento médico, dinheiro e bons relacionamentos. Que me desculpe Hipócrates!
Por Joaquim Correia Filho
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