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Rapidinhas

"Palmas para os prefeitos de Água Branca, Valença, Floriano, Teresina e Parnaíba - únicas cidades do Piauí com mais de 60% das casas cobertas por serviço de coleta de lixo. Segundo o IBGE, somente 44% das casas piauienses têm a coleta.", publicou o jornalista Claudio Barros em sua página pessoal.
Apesar da boa notícia para os que estavam esperando desde 2009, o chamamento para assumir vaga nos quadros da PM não contempla Parnaíba. Os novos soldados serão destinados para os batalhões nas cidades de Picos, Piripiri e Teresina. A região litorânea tem apenas 300 homens para cobrir toda a área.

PINDORAMA - Médicos, entre a correria e a frieza



Pelo Doutor Joaquim Correia Filho. Havia deixado a Santa Casa de Misericórdia pouco depois das 11:00 horas, já depois de ter visitado clientes na Promédica. Ser clínico geral em Parnaíba não é mole, porque eles querem que façamos de tudo na medicina.

Pelo “geral” de nossa denominação eles entendem que devemos atender a todos os pacientes, em todas as áreas, com acerto e profundidade de especialista. Assim, somos chamados para atender acidentados, parturientes, epiléticos,gripados e até loucos. E por não ter médicos suficientes, em todas as áreas, as atendentes nos mandam os casos mais escabrosos para o nosso plantão.

            - Quero um médico.

            - Particular?

            - Não.

            - Tem convênio?

            - Não.

            - Pelo SUS demora um pouco. Só tem o doutor Joaquim Filho.

            E me mandava o paciente. Para o atendido pelo SUS, pouco importava a especialização do médico, interessava que falava com um médico e possivelmente receberia remédios gratuitos, que guardaria em casa, que seria útil num futuro próximo, para si mesmo ou para um parente. Nunca se sabe quando vai precisar.

            Da Santa Casa desci pela Rua Dr. João Emílio Falcão, passando pelo Mercado da Quarenta. Aquela via pública, deserta e abandonada, passando em frente das instalações da PVP e entre ruínas de velhos prédios comerciais, já sem portas e exalando cheiro roto de fezes, urina e odores diversos, era caminho alternativo aos transtornos da Praça da Graça.  Fui até o Porto das Barcas, onde precisava acertar o negócio de uma viagem de turismo que estava planejando fazer à Jericoaraca, que muito minha mulher vinha cobrando. A visão do Rio Igaraçu, pela estreita orla entre prédios e ante a mureta de proteção, sugeria uma parada prolongada para meditações. Se eu tivesse esse tempo, claro!

            Já de volta, na rotatória aos pés da ponte, havia um engarrafamento e pouco adiante um aglomerado de pessoas. Só pode ser acidente, pensei. Parei o carro e fiquei pensando, ouvindo música, baixinho, vidros levantados, ar condicionado ligado. Olhei dos lados, vendo o movimento. Distante uns cem metros dormia o velho prédio da Morais, cinzento e alquebrado, como um defunto insepulto, que aguarda o nada, em tempo algum. Em sua frente, as ruínas dos galpões das docas e dos grandes armazéns, hoje tombadas pelo Patrimônio Histórico Nacional, mas que serve de esconderijo para bêbados, drogados e prostitutas, à noite, e que todos as têm como legados valiosos, “conjunto arquitetônico histórico”. É lá que o nostálgico guia turístico informa:

             - Aqui foi isso, ali foi aquilo – e mostra as velhas paredes carcomidas e parecendo que vão desabar a qualquer momento.

            - São tombadas?

            - Sim. Vão ser recuperadas.

            - É, porque senão, vão tombar de verdade. Só não quero que sejam em cima de mim – diz o turista a sorrir e se apressar para ir embora dali.

            Olhei a esquina onde meu pai tinha uma venda, um mercantil. Fornecia gêneros alimentícios para os empregados da Morais e para os habitantes da Ilha e os ribeirinhos. Muito o ajudei a atender aos empregados, suas esposas e filhos, que vinham buscar, muitas vezes, o alimento do dia, na esperança de que no dia seguinte haveria de ser melhor, com fé em Deus, não precisaria comprar fiado de novo. E compravam sempre, até o dia do “vale”, que pagavam o débito e já na manhã seguinte vinham de novo.

            - Uma quarta de café e um quilo de açúcar – pedia o filho de Seu Eufrásio, tímido, esfregando um pé no outro, nervoso, envergonhado e impaciente.

Tinha a mesma idade que eu, mas não tínhamos amizade. Ele morava no Cheira Mijo e lá eu não ia, meus pais não deixavam. Diziam que era lugar de gente sem costumes, que não tinham idéia de higiene. Eu o atendia com asco, querendo ver-me livre logo.

- É fiado – grunhia o moleque.

            - Anota aí, Doutorzinho – pedia meu pai.

            O velho sempre quis que eu fosse médico. Sonhava e trabalhava para isso, vivia isso a todo momento. Candidatou-se uma vez a vereador, a pedido de seu primo e diante do protesto de minha mãe, fechou o cenho e falou sério:

            - É só por causa do Doutorzinho. Não sei no que vai dar o futuro do comércio. Vou poupar os salários de vereador e garantir os estudos de nosso Quinzinho.

            E assim fez. Tanto que não pediu nem aceitou reeleição, por causa da “pedição” dos eleitores, que a todo dia vinham no comércio atrás de qualquer coisa, ao que meu pai retrucava sisudo:

            - Não tem não, amigo. Aqui é só comércio. Depois, não vou mais me candidatar – e o pobre ia embora, cabeça baixa, à procura de outro candidato.

            Do comércio para a Morais era um pulo. De lá eu podia ver os empregados chegarem, saírem. O Chico Carroça, de terno e chapéu pretos, chegava parecendo um diretor. Impecável. Era mecânico. Trocava a roupa por um uniforme por ele mesmo imaginado, sujo de graxa e roto do tempo, que era lavado somente de mês em mês. Trazia consigo sempre um guarda-chuva preto, de inverno a inverno, não podia arriscar molhar-se na chuva nem suando a cântaros, ao sol forte dos verões parnaibanos.

            Podia ver também chegarem os ribeirinhos, descidos das embarcações de madeira, uns de bem longe, dos Tatus, outros dali mesmo, do lado de lá do Igaraçu. Calças com as bainhas molhadas, que mesmo levantando-as até o joelho, não evitavam o contato com a água fria ao subirem e descerem do barco. O píer, sempre prestes a afundar nas águas do rio, não dava conta de tanto movimento e muitos barcos ancoravam mesmo na rampa. E os passageiros rumavam para o comércio do Porto das Barcas, para vender amêndoas de coco, queijo, peixes, verduras e tudo o mais que era produzido, conforme fosse a época do ano. Meu pai parava de atender clientes para receber os vendedores. Era preciso atenção naquelas horas, para não perder a mercadoria e ao mesmo tempo pagar o menor preço possível. Só ele fazia isso. Para alguns dizia que não queria, que já tinha muito, sabendo ele que o estoque não dava para um só dia. Mas era preciso falar assim, para forçar o preço pra baixo.

            Podia ver Seu Mundico chegar no seu Aero Willis, carrão verde com pára-choques metálicos, reluzentes. Dirigia devagar, sem pressa, vidros baixados, cumprimentando a todos. O braço do lado de fora favorecia o gesto.

            - Olá compadre! Oi Joaquim! Bom dia Zezão! Bom dia Dona Maria! Bom dia Doutor... – seguia impassível.

Altevir Esteves para o Proparnaiba.com

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