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Rapidinhas

"Palmas para os prefeitos de Água Branca, Valença, Floriano, Teresina e Parnaíba - únicas cidades do Piauí com mais de 60% das casas cobertas por serviço de coleta de lixo. Segundo o IBGE, somente 44% das casas piauienses têm a coleta.", publicou o jornalista Claudio Barros em sua página pessoal.
Apesar da boa notícia para os que estavam esperando desde 2009, o chamamento para assumir vaga nos quadros da PM não contempla Parnaíba. Os novos soldados serão destinados para os batalhões nas cidades de Picos, Piripiri e Teresina. A região litorânea tem apenas 300 homens para cobrir toda a área.

PINDORAMA - Mercado da Quarenta



Por José Barros 

A feira da Quarenta, nas proximidades da Praça da Mulher do Pote, estava particularmente agitada. Era sábado de período chuvoso, animado ainda pelo fim das aulas, festas juninas e quando os primeiros turistas chegavam para as férias.

Turistas, quero dizer, os farofeiros, turistas da terra, que vêm para suas casas, próprias ou alugadas, e pretendem cozinhar as refeições, pouco ou quase nada consumindo nas barracas e restaurantes das praias. Invadem as feiras livres para o deleite dos feirantes. As barracas cobertas de plástico escondiam vendedores e compradores, todos arcados sobre as bancas, pingos de água sobre as cabeças, cabelos molhados, suor abafado. No chão de terra compactada, restolhos de verduras e frutas estragadas, sangue de bovinos, lama do mangue que acompanha os caranguejos, palhas e cabelos de milho verde, penas de galinha, escama e vísceras de peixes, tudo misturado aqui e acolá, compondo um quadro dantesco, também à semelhança de Paris sob a visão de Patrick Susking, em “O Perfume”. Pendurada numa forquilha de madeira, repousava a cabeça de um carneiro, ainda ligada às demais vísceras pela garganta, mostrando os dentes sujos do animal e os olhos salientes, abertos, como a contemplar, horrorizado, toda a cena.

            Aquele mercado, na verdade uma feira livre no sentido exato da expressão, porque a liberdade era irrestrita e por isso levada a termo pelos piores ângulos dos usuários, era motivo de orgulho e vergonha, ao mesmo tempo, pela sociedade. Orgulho por causa da cultura, da tradição remota, porque para ali se encaminhavam os produtos menos nobres que chegavam às embarcações do Rio Igaraçu. Por muito tempo foi o centro de comercialização principal da cidade, até construírem o Mercado de Fátima, continuado pelo Mercado da Guarita e depois, a Feira da Caramuru, transformado também em mercado público posteriormente. Vergonha pela descrição que já fiz, tudo isso no centro da cidade, aos olhos de todas, toda a sujeira e podridão. As mercadorias eram oferecidas nas barracas, que antes se amontoavam às margens do córrego, agora já invadiam a rua e a praça, sobre bancas improvisadas, sobre caçuás ou simplesmente sobre esteiras deitadas ao chão. Aos montes, banana prata, laranjas, abacaxis, tomates e cebolas recebiam respingos do chão, trazidos nas chinelas de dedos, salpicando lama e lodo sobre as mercadorias. Alfaces e cheiro verde recebiam o vapor diretamente dos canos de descarga dos ônibus e automóveis que passavam buzinando, apressados.

            Muito se falava em tirar o mercado daquele local. Negócio difícil para a autoridade pública, porque tal decisão era impopular e o risco político era dos mais altos. Para onde ir tantos feirantes, pais e mães de família, que ali tiram o sustento? A pergunta já havia dado um nó na garganta de tantos prefeitos e líderes e mais não foi porque muitos deles não se deram o trabalho, sequer, de pensar no assunto.

            Desviando de um e de outro, sob o barulho dos feirantes que gritavam seus produtos, cheguei até a banca de dona Neusa, que ficava no vão central da Rua Luiz Correia, bem em frente à padaria do Chico Lustosa, a mesma que um dia havia pertencido a Zé Mário. A parada ali era obrigatória para muitos. E eu não perdia, nunca. Dona Neusa vendia cuscuz de arroz, molhado com leite de coco. Também oferecia beiju de goma, temperado com coco ralado, além de tapioca. O cuscuz eu levava para casa, para o café da manhã. A feirante despejava o leite de uma garrafa pet no saco plástico onde já estava o cuscuz, sempre sob meus protestos, porque ela economizava leite. Mas ali mesmo eu devorava pedaços de beiju, forçando garganta a baixo, empurrados pelo café quente.  

            Dona Neusa era senhora idosa, de muitos anos e calejo da vida. Sua fisionomia, embora alegre e simpática, sugeria sofrimento de tempos passados, de fome e de noites indormidas.

            A padaria de Chico Lustosa concentrava-se nos pães de trigo, empilhados sobre o balcão. Os pães doces ficavam na parte interna, protegidos com vidro, por causa das moscas que às centenas esvoaçavam o lugar. O padeiro vivia da feira, mas não simpatizava com a banca de dona Neuza, por achar que a feirante lhe roubava os clientes, pois seus produtos de goma eram concorrentes aos de trigo. Quando estava parado, nos intervalos das vendas, debruçado sobre o balcão, ao ver um cliente se aproximar da banca, gritava:

            - Olha o pão quentinho!

            Quentinho não podia ser, já que Chico não os fabricava, tendo os recebido de outra padaria. Apenas os revendia, pois ele não sabia fazer pão.

            - Bom dia dona Neuza – cumprimentei a feirante – dê-me um café urgente!

            - Bom dia, professor. Que deu no senhor? Tá mais apressado do que de costume!

            - Nada não, dona. Só quero espantar esse vento frio.

            - Pois num é? Hoje ta demais! Que Deus abençoe.

            E colocou o café em um copo plástico, finíssimo. Segurei trocando de mãos, para não me queimar. Sorvia devagar a bebida quando algo aconteceu. Uma mulher magra trombou comigo, fazendo o café derramar-se sobre minhas roupas.

            - Que diabo foi isso? A senhora ta doida?

            A mulher não respondeu. Sequer pediu desculpas. Passou correndo em direção aos fundos da feira. Atrás dela passou um homem de meia idade, dentes cerrados, punhos em riste, olhos fitados. A silhueta franzina da mulher e seu short curto, poderiam enganar quanto à sua idade. Reparando bem, poder-se-ia atribuir-lhe não menos de cinqüenta janeiros nos couros.

            - É Maria Creuza – adiantou-se dona Neuza – coitada, que sina infeliz! Não tem Jesus no Coração.

            - A senhora conhece todo mundo, não é?

            - Muita gente. Essa daí foi minha vizinha, há muito tempo. Mas não gosto de falar nisso. Hoje não.

            - Por causa da feira?

            - Não. Porque é história triste e eu já superei tudo, com a graça de Deus. Hoje sou uma mulher devotada a Jesus, aleluia!

            - Mas dona Neuza, a senhora não precisa esquecer seu passado. É até bom lembrar, se já o superou, para acreditar cada vez mais na sua recuperação, no seu crescimento.

            - Outro dia eu conto, Seu Zé. Hoje é feira e não posso perder tempo. Um dia desses a gente conversa, ta?

            - Entendo – disse-lhe, porque realmente entendia mesmo – me dá duas fatias de cuscuz de arroz com bastante leite de coco. Larga tu de ser miserável!

            - Sim senhor. Mas não diga isso. É que ta tudo caro, Seu Zé!

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