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Rapidinhas

"Palmas para os prefeitos de Água Branca, Valença, Floriano, Teresina e Parnaíba - únicas cidades do Piauí com mais de 60% das casas cobertas por serviço de coleta de lixo. Segundo o IBGE, somente 44% das casas piauienses têm a coleta.", publicou o jornalista Claudio Barros em sua página pessoal.
Apesar da boa notícia para os que estavam esperando desde 2009, o chamamento para assumir vaga nos quadros da PM não contempla Parnaíba. Os novos soldados serão destinados para os batalhões nas cidades de Picos, Piripiri e Teresina. A região litorânea tem apenas 300 homens para cobrir toda a área.

PINDORAMA - No Hospital



     Naquele dia eu não estava mesmo com sorte. A moto amanheceu com o pneu furado, conseqüência de uma corrida que fiz ao Morro da Mariana. Não sou moto-taxista por profissão, nem por escolha.
É um bico que já duram quatro anos, desde que entrei para a faculdade de administração e senti necessidade de ganhar uns trocados para comprar livros, lanchar e poder me vestir melhor. Além do mais, em Parnaíba, não ter um meio de transporte é duro, porque as coisas são longe e as meninas não querem sair com cara que ande de pé ou de van. Mas há vários colegas que trabalham há anos e não vêem como sair disso. Também não têm escolha. Não têm outra profissão, e se tivesse, não é fácil colocação no mercado local. Alguns dizem que nasci para conduzir motos, por causa de minha agilidade e delicadeza com os passageiros. Isso contribuiu para chegar a quatro anos no serviço, mas volto a afirmar, não é minha profissão.
Acabo de concluir o curso universitário e pretendo fazer uma grande festa de formatura. O baile de formatura será no Hotel Atalaia, à beira-mar, em alto estilo. Sei que vou gastar muito, muito mais do que possuo, pois sempre surgem os extras. Economizei durante dois anos e se não fosse isso poderia até ter trocado de moto, o que muitos me aconselharam.
- Larga de tu ser besta, Israel! Ao invés de dar de comer e beber a um bocado de amigos falsos, compra uma máquina nova, que a tua não agüenta muito...
- Não são amigos falsos. São parentes, noiva, e muita gente que gosta de mim.
- Vamos pra frente. De nada vai te adiantar o álbum de formatura, na hora de pedir um emprego.
Tinha razão, o bobo do meu colega. Pelo menos em relação ao álbum. Mas ele estava longe de saber o significado de uma formatura. Ele não estudou mais que a oitava série e sua família esteve a lutar, até hoje, pelo pão-de-cada-dia. E lutar pela comida é o propósito para a maioria de nós, enquadrado na base da pirâmide social de Maslow, como aprendi no curso de Administração de Empresas. Como diz um amigo meu, “vende-se o almoço para se comprar a janta”. Mas graças a Deus não era o meu caso. Vivia aperreado, é claro, mas a comida eu tinha superado. Não era desses que se debruçavam devotos frente a um prato de feijão com arroz, daqueles que chamamos de “montanha de comida”, e se fartam com alimentos gordos e consistentes apenas de carboidratos e gorduras saturadas.
Não queria seguir o caminho do meu pai. Tanta fartura, tanta pompa nos gordos tempos. De empresário. E hoje? Pobre do meu pai. Tanto tempo de trabalho e ainda continua a lutar, diariamente em tempo de acabar, pelo almoço ou pela janta, pelas ruas da cidade. A minha escolha pelo curso de administração tinha a ver com sua decadência no comércio, julgávamos que poderia lhe ajudar na condução dos negócios. Tarde demais.
Fiz uma corrida fiado, para um cliente fiel, e que hoje era o dia dele me pagar, mas que não tinha dinheiro. Outra, para um moço que ia para a rodoviária pegar um ônibus da Guanabara, e que não tive troco para lhe retornar e quando procurava trocar a nota de dez reais, o ônibus, que já estava no box pronto para partir, buzinou pela última vez, dando ligeiras aceleradas. O passageiro pediu desculpas e sua cédula de volta, dizendo-me ainda que eu deveria sempre ter troco, porque assim era o Código de Defesa do Consumidor. Calei-me a amarguei mais um prejuízo.
Recebi logo um chamado para ir pegar uma mulher no Joaz Souza e que estava apressada. Para mim seria a última antes do almoço, pois já tinha acertado com a namorada de ir almoçar na casa dela e combinar umas coisas para a formatura. Precisava mesmo. Somos colegas de aula e já há muito que teimávamos quanto à questão dos padrinhos. Eu sustentava que podíamos ser padrinhos recíprocos. Ela dizia que não, baseada em informações da comissão de formatura.
- Vou com meu pai – ela sustentava. Você, com sua mãe – completava.
- Bobagem. Podemos inovar. Cadê a imaginação, cadê a iniciativa? É por isso que andam dizendo por aí que festas de formatura não têm graça nenhuma, que é um mera ilusão.
- É o protocolo, a formalidade, meu amor. Não somos nós que vamos nos expor ao ridículo.
- Prefiro me expor do que ser rotineiro, bitolado, limitado.
Conversas do tipo já muitas vezes tinham acabado em discussões que nos roubava bons momentos de amor. Não podia continuar. Iria por fim concordar com ela, mesmo que fosse só da boca para fora. Dilma é muito legal e eu não vou desgostá-la por tão pouco. Ia logo pegar a passageira apressada do Joaz Souza e voltar ao bairro Pindorama, onde ela estava. Comeria uma palombeta frita, feita pela mãe de Dilma e depois sossegaria um pouco junto dela, acertando o raio da formatura.
Pensando em Dilma peguei a Rua Ananguera, após contornar o canteiro central da Pinheiro Machado em frente ao Posto Delta. Entrei com a quinta marcha e acelerei forte, pulando as depressões do asfalto em frente às torres de TV. Segurei forte o guidão e voltei a girar o punho direito, fazendo a moto dá uma ligeira upa. A máquina era boa sim, e aquele colega dizendo que precisava logo trocar de moto. Não sabe de nada ou queria desvalorizá-la para depois oferecer proposta de compra por valor irrisório. Idiota!
Olhei o relógio digital comprado na banca: 11:30 horas. Tava atrasado. Não devia ter vindo pela Ananguera. Melhor ter pegado a Rua Ceará. Mas eu já estava em frente à Faculdade e não havia retorno ali. O diabo do prefeito havia fechado quase todos os cruzamentos da Avenida Pinheiro Machado, dizendo ele, para evitar acidentes, que nos últimos meses havia matado dezenas de pedestres, atropelados por motos e carros.
O cruzamento com a Burlemax sempre foi perigoso. A outra rua tem asfalto novo e plano, fazendo os motoristas e motoqueiros acharem que são donos da situação. A placa de “PARE” fica um pouco escondida pelas árvores, que ali são grandes e fazem boa sombra. O dono de um barzinho da esquina construiu barreiras de cimento para evitar acidentes que destruam sua casa. Sempre olho de lado, principalmente para o lado da Caramuru, de onde costumam vir apressados que circulam de um banco a outro, comerciantes e moto boys, atrás de cobrir cheques de ultima hora.
Vinha um carro de passeio. Buzinei e vi que ia parar. Não deu tempo olhar para o outro lado. O sujeito entrou forte. Foi tudo muito rápido. Não vi mais nada até ser imobilizado pelos médicos. Não sentia dor. Sentia ser um grande paspalhão. Tinha raiva do outro motoqueiro. Imbecil! Entrou na preferencial sem olhar. Ou seria eu o idiota? Sabia do perigo e continuei acelerado... Não. Eu olhei de lado. Só não deu tempo olhar para os dois lados. Com certeza não era o meu dia de sorte. Tava tudo errado. Não deveria ter saído da cama. As coisas não acontecem por acaso, já dizia Zibia Gasparetto.
Deitado na cama do hospital aguardava medicamentos. Agora sentia as costelas. Alguma coisa estava errada com elas. Tentei apalpá-las. O braço direito doeu e não consegui levantar a mão. Estava mesmo era numa maca. Olhei de lado e vi que era um corredor. Havia mais gente ali, doentes, acidentados como eu. Um atendente se aproximou:
- E este?
- Chegou agora – respondeu uma mulher de branco que ia passando.
- O médico já viu?
- Como? Meu filho, acorde! Já são nove, só esta manhã! Só motoqueiros!
- Será que Parnaíba vai se acabar debaixo de motos?
- Debaixo ou em cima delas. E os que as vendem cada vez mais ricos e os que compram sendo enterrados ou amputados!
- É por isso que dizem que as motos são chamadas de “desintera família”.
- Mas não é só em Parnaíba. É no nordeste inteiro. Sobral, Picos, Quixadá, Campina Grande, em todo lugar.
- Até em Teresina. Em nossa capital já tem moto taxistas, é mole?
Dirigindo-se a mim, perguntou:
- E aí rapaz, está me ouvindo?
- Sim – grunhi.
- Está sentindo alguma dor?
- As costelas, o braço...
- Devia ter pensando nisso antes de sair por aí, em disparada. Agüenta firme, vou ver se o médico pode lhe atender.
Meia hora depois apareceu um médico.
- Onde dói?
- As costelas. O braço não me atende...
Olhou-me de cima a baixo. Pegou uma prancheta onde estava um documento. Examinou rapidamente.
- Costelas, perna e braço direitos – para o atendente, disse:
- Leve-o para a ortopedia.
            - Mas doutor, as costelas... Eles não têm como imobilizá-lo. Falta material e o único profissional que sabe fazer isso não atende hoje.
            - Veja como está a ambulância.
            - Ainda não chegou de Teresina. Foi levar aquele traumatismo craniano da madrugada.
            - Então para a ortopedia. Seja o que Deus quiser.
            - Não é melhor tentar falar com a família dele? Talvez tenham condições...
            - Onde você viu moto taxista ter condições? Veja o que pode fazer. Se não, ortopedia nele – disse já se virando para o fundo do corredor.
            O Atendente virou-se para mim:
            - Ouviu, meu amigo? – e sem esperar resposta – tem alguém?
            - Meu celular... Ligue para Dilma – disse com dificuldade.
            - Onde está seu celular?
            - No bolso.
            - Não tem nenhum celular. – disse depois de revirar minha roupa - Deve ter caído. Tem o número decorado?
            - Não. É novo. Não decorei ainda.
            - Estaca zero. Ortopedia...                                         

Por Israel

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