Domingos José Martins (um benemérito do correio parnaibano)

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No final do século XVIII, começaram a retornar da Europa, os estudantes brasileiros impregnados pelas idéias do iluminismo. Vindos principalmente das universidades de Coimbra, Portugal, e Montpelier, França,

estes não mais acreditavam na origem divina dos reis e nem aceitavam o seu absolutismo, não concordavam com a exploração da Metrópole sobre o Brasil. Retornaram prontos para lutar pela liberdade.


Reino da proibição, o Brasil era controlado, desde 1500, sempre com pesados impostos e com o povo sem direito a instrução. Coube, então, a estes estudantes, o papel de conduzir o Brasil para a sua independência. Unidos nas sociedades secretas, tramaram contra o jugo português. Foi assim, que o grupo de liberais parnaibanos, no início do século XIX, se aproximou dos líderes do Ceará e Pernambuco.

 

Domingos José Martins (1781-1817), grande comerciante e chefe imortal, liberal, republicano, líder civil da Revolução Pernambucana de 1817. Representava o Comércio na Junta da nova República. Óleo sobre tela de F T J Lobo do Instituto Arqueológico Histórico e Geográfico Pernambucano.

Em 1815, para facilitar a comunicação entre os patriotas, os parnaibanos compraram uma franquia do correio de Fortaleza, Ceará. Entre os beneméritos que contribuíram para a compra da concessão da agência parnaibana: Simplício Dias da Silva com 200 mil réis, Manoel Antônio da Silva Henriques 50 mil réis, João José de Sales 20 mil réis, Bernardo Antônio Saraiva 6,4 mil réis e Domingos José Martins com 40 mil réis, num total de 996 mil réis. Em resposta, o governador do Ceará, Manuel Inácio de Sampaio, escreveu aos parnaibanos: “Satisfazendo aos desejos dos negociantes e mais habitantes da Villa da Parnaíba, que me foram comunicados pelo actual Juiz de Fora daquela Vª. o Dezor. José Francisco da Silva da Costa Furtado, e pelo Coronel Simplício Dias da Silva, e de acordo com o Governador d’aquela Capitania do Piauhy, acabo de estabelecer na dita Villa da Parnahiba huma Agência do Correio semelhante em tudo as outras Agências”.

Para exercer o cargo de agente da empresa parnaibana, o governador Sampaio nomeou o coronel João José de Sales. Em congratulações pelo envio dos recursos destinados à criação da agência, o chefe cearense escreveu em ofício: “Alegro-me infinito, que a criação desta nova Agência fôsse tanto do agrado dos Negociantes e mais habitantes dessa Villa, como conheço das lisongeiras cartas que recebi, passando a louvar o rasgo de generosidade e patriotismo daquele povo em subscrever, espontaneamente, a quantia necessária para suprir as despesas do estabelecimento no caso inesperado que excedão a receita”. É que os parnaibanos enviaram para o Governador Sampaio, quantia superior a necessária para abertura da agência parnaibana. Em 31 de agosto de 1815, começou a funcionar o Correio na Vila da Parnaíba, pagando-se 80 réis pela postagem de uma carta simples. Os estafetas eram índios que faziam quatro viagens mensais para Fortaleza, via Granja e Sobral, e eram sujeitos a castigos, se não chegassem no dia previsto.

Lápide do irmão Coronel João José de Salles, benemérito e agente do Correio da Vila de São João da Parnahiba, criado em 1815. Na Catedral de Nossa Senhora da Mãe da Divina Graça, em Parnaíba, Piauí, templo tombado pelo IPHAN.

Mas quem foi Domingos José Martins, esse benemérito do correio parnaibano?
Domingos José Martins foi chefe do movimento republicano, em 1817, em Pernambuco. Nasceu no sítio Caxangá, nas proximidades de Itapemirim, hoje município de Marataízes, no estado do Espírito Santo, e foi fuzilado em Salvador, Bahia, em 12 de junho de 1817. A Revolução Pernambucana de 1817 visava proclamar a independência do Brasil, ainda sob o jugo de Portugal, e implantar o regime democrático.

 


Bênçãos das bandeiras da Revolução de 1817. Óleo sobre tela de Antônio Parreiras, no Arquivo Público do Recife, Pernambuco.


Página do livro Anais Pernambucanos de F A Pereira da Costa, também autor de Cronologia Histórica do Estado do Piauí.

Bandeira da Revolução de 1817 (E), desenhada pelo maçom Antônio Alves, e a atual bandeira de Pernambuco (D) inspirada na bandeira da Revolução, quando mostrava três estrelas simbolizando as províncias que se uniram na República: Ceará, Paraíba e Pernambuco.

Martins estudou em Portugal, era um homem culto e bastante viajado. Em Londres, Inglaterra, se tornou representante de firmas comerciais. Como maçom, esteve em contato com as principais figuras do liberalismo inglês, e com o general venezuelano Francisco de Miranda, propagador das idéias iluministas e da emancipação dos povos americanos. Miranda lutou na guerra da Independência dos Estados Unidos, vindo da França com as tropas do general Charles François Dumouriez. Iniciou os trabalhos, depois consolidados por Simóm Bolívar.

No início do século XIX, os parnaibanos já bebiam nessas fontes jorradas na Revolução Francesa. Domingos José Martins, quando foi benemérito do correio parnaibano, encontrava-se em Fortaleza, Ceará, a serviço da firma Barroso, Martins, Dourado & Carvalho, da qual era sócio. Essa firma tinha sede em Londres, e intermediava negócios com algodão.

Nesta época, todos os liberais do Norte do Brasil, se comunicavam entre si: José Gonçalves da Silva no Maranhão, Simplício Dias da Silva no Piauí, José Martiniano de Alencar (pai do escritor) no Ceará, e grande grupo, em Pernambuco, onde estavam Frei Caneca, Padre Roma (pai do general Abreu e Lima braço direito de Simóm Bolívar), Domingos Teotônio Jorge (o Leão Coroado), entre outros. Em Belém, o doutor João Cândido de Deus e Silva, depois juiz de fora da Vila da Parnaíba e um dos corifeus do 19 de Outubro de 1822 - a Proclamação da Independência do Brasil em Parnaíba, foi envolvido em boletim que o dava como partidário do movimento pernambucano.

Com o fim da Revolução de 1817, que durou apenas 75 dias, vários líderes do movimento foram fuzilados em várias províncias, entre eles, Domingos José Martins, julgado sumariamente pela fria compaixão do Conde dos Arcos, da Bahia. No ato de seu fuzilamento, no Campo da Pólvora em Salvador, portou-se como um bravo: “Vinde executar as ordens do vosso sultão (referia-se ao despotismo do conde). Morro pela liberdade!”. Padre Roma também morreu como legítimo mártir, enfrentando o pelotão de execução, disse aos soldados: “camaradas, eu vos perdôo a minha morte. Lembrai-vos, na pontaria, de que o coração é a fonte da vida, e atirai...”. No Ceará, os revoltosos sofreram com a repressão dura e severa do governador português Sampaio, que perseguiu desafetos.

Em Pernambuco, alguns revolucionários conseguiram escapar da morte, como Cruz Cabugá, que, nos Estados Unidos, ficou protegido pela Maçonaria Americana, longe da tirania do Conde dos Arcos. Cabugá bancou parte da Revolução, e por promover muitos banquetes para reuniões secretas, sua casa ficou conhecida e batizada pelos portugueses de Capela de Batizados Maçônicos.

No Piauí, Simplício Dias da Silva, como comandante militar da Vila da Parnaíba, recebeu, em maio de 1817, vários ofícios do governador da província, Baltazar de Souza Botelho de Vasconcelos, recomendando atenção e solicitando o seqüestro de todas as embarcações de Pernambuco que estivessem ou viessem a estar ancorados no porto da vila da Parnaíba, e também determinando, por ordem régia de Dom João VI, que fossem tomadas todas as medidas para a segurança, e proibida a troca de correspondências com Pernambuco, sendo suspensa a venda de gado para a província rebelada. Mas secretamente, todos estavam ligados pelos laços de fraternidade e liberdade.

Domingos José Martins é nome de rua e praça em diversas cidades do Brasil, como Recife, Santos, Vitória, Rio de Janeiro, Itapemirim. Dá nome a loja maçônica, e ao Palácio da Assembleia Legislativa do Espírito Santo, em Vitória, e também é nome de cidade no mesmo estado, onde o dia do município é celebrado na data da morte do revolucionário capixaba. É patrono da Polícia Civil e do Instituto Histórico e Geográfico do Estado do Espírito Santo.

Antes de sofrer cruel martírio, Domingos José Martins escreveu a sua pátria e a sua amada:

Meus ternos pensamentos, que sagrados
me fostes quase a par da Liberdade,
Em vós não tem poder a iniqüidade;
À esposa voai, narrai meus fados.


Dizei-lhe que nos transes apertados,
Ao passar desta vida à eternidade,
Ela d'alma reinava na metade
e com a Pátria partia-lhe os cuidados.


A Pátria foi o meu númen primeiro,
A esposa depois o mais querido
Objeto de desvelo verdadeiro;


E na morte entre ambas repartido,
Será de uma o suspiro derradeiro,
Será de outra o último gemido.

 

Extraído de Sonetos Brasileiros Século XVII – XX. Coletânea organizada por Laudelino Freire. 2ª Edição. Rio de Janeiro: F. Briguiet & Cia Editores, 1914.

Nota: leia o capítulo 23, A República Pernambucana, no livro “1808”, de Laurentino Gomes. Editora Planeta do Brasil, 2007.