


Desde os tempos mais remotos da humanidade, o homem procurou meios para evitar, ou curar doenças. Observando plantas e animais, começou a distinguir o que poderia ser utilizado como elemento medicinal.
Para os brasis, esse conhecimento empírico foi passado de geração em geração, formando um conjunto de práticas que chegaram até o índio do período colonial. Esse conhecimento, hoje conhecido como fitoterapia, era de domínio dos índios de todas as partes do Brasil, apenas variando por influência de características culturais e do conjunto de plantas das floras regionais.
Com a sua enorme biodiversidade observada pelos europeus, desde os primeiros relatos, o Brasil oferecia ao índio, uma grande possibilidade de se obter plantas medicinais. Há milhares de anos como nativo da terra, o índio, atento observador da natureza, conseguiu catalogar, através de seus pajés, drogas que formaram a sua grande farmacopeia. Aliadas a rituais, essas drogas eram a sabedoria das selvas, faziam com que os pajés fossem figuras de respeito em toda tribo, sendo os guardiões das receitas mágicas e seus feitiços.

Xilogravura de Theodor De Bry da obra de Jean de Léry, Histoire d’un voyage fait en la terre du Brésil, p. 335, edição de 1578, no capítulo XIX dedicado a práticas indígenas relativas às doenças e a morte.
Com o objetivo de explorar comercialmente o Novo Mundo, dividido no Tratado de Tordesilhas, os europeus uniram o poder temporal ao espiritual, no comando de sua grande empresa. Ao chegar a Terra de Vera Cruz, Caminha, em sua carta ao rei de Portugal, dom Manuel, observou as belezas, as aves estranhas, a sua gente inocente com sua nudez que mostravam sem nenhuma vergonha, mas considerou os nativos muito selvagens e “o melhor que os portugueses podiam fazer seria salvar aquela gente”.
Considerando um povo sem Deus, os padres portugueses passaram a ver as práticas indígenas como demoníacas. Ao longo do período colonial, fizeram os brasis perderem grande parte de sua cultura, incluindo aí, os segredos da cura, riqueza adquirida ao longo de milhares de anos e extraída das florestas.
Uns dos primeiros relatos sobre a maneira como os índios se medicavam foi feito pelo cronista francês, Jean de Léry, em seu livro História de uma viagem a terra do Brasil, de 1578, no capítulo XIX, dedicado a práticas indígenas relativas às doenças e a morte: “Se acontece adoecer um selvagem, dá logo a conhecer em que parte do corpo lhe dóe, sendo esse lugar chupado com a bocca por algum amigo ou pelo pagé, embusteiro de genero diverso do carahiba e correspondente ao nosso barbeiro, ou medico. Os pagés fazem crer aos doentes que lhes arrancam a molestia do corpo e lhes prolongam a vida”.
A maioria dos índios da América considerava que o criador fez o homem através da música. Esta era o canal de comunicação com os espíritos que traziam saúde e as outras sabedorias transmitidas ao pajé, que tinha o poder de receber as mensagens e passá-las para a tribo, através de cantos. Cabia ao ente espiritual, determinar qual erva iria salvar o enfermo, tudo isso ao longo de rituais intermináveis. Vem daí, a grande importância da música, do canto e da dança para os índios.
A flauta, o maracá, tambores e cachimbos eram objetos de adoração do povo das selvas, que acompanhavam os índios em vários rituais, incluindo o de cura. Após muita bebida, como o cauim, bebida alcoólica feita através da fermentação da mandioca ou do milho, muito canto e dança, a música revelava o tratamento escolhido pelos espíritos para recuperar o doente: banhos, dietas, aplicação de calor e defumação, massagens, fricções, vômito, beberagens à base de plantas medicinais, escarificação no tórax e locais inflamados com objetos pontiagudos como dentes de animais, e até o isolamento do enfermo.
Para o pajé, a grande via de ligação com o outro mundo, era o petüm, o fumo misturado a outras ervas, preparado também em forma de charuto. Após se intoxicar ao engolir grande quantidade de fumaça, o pajé entrava em estado cataléptico momento de fazer contato com os espíritos. O transe determinava que o pajé estivesse possuído pelo ente sobrenatural. Theodor Koch, cientista alemão viajante pela Amazônia no início do século XX, em seu livro Dois anos entre os indígenas 1903-1905, descreveu os momentos finais de um índio: “Ouvi nitidamente os estalos das chupadas e os fortes sopros do pajé. Depois de cada ato curativo, ele corria para fora da casa [...] De tarde, três pajés realizaram atrás da casa do moribundo um grande exorcismo. [...] Na mágica da cura, o chocalho mágico tem papel principal. O pajé não se separa de jeito nenhum deste objeto precioso, ao qual ele atribui um poder misterioso”.
Os índios acreditavam que os pajés tinham tanto o poder da cura, como o de provocá-las. Atribuía-se ao feitiço, a causa das mais diversas doenças. A morte de um índio era vista como maldade de algum feiticeiro inimigo, que passaria a ser alvo de vingança. Caso o pajé não conseguisse tratar o doente, e se o mal se espalhasse para outros membros da tribo, todo o grupo deveria procurar outra “terra sem males”.
Para os padres do período colonial, todo poder dos pajés era culto ao demônio, manifestações que deveriam ser excluídas do povo de Deus. Impedidos de realizar seus rituais, os índios foram perdendo sabedorias repassadas, ao longo dos tempos, pelos seus ancestrais. Muitos desses saberes que os índios julgavam com poder de cura, não produziam nenhum efeito real, sendo de valor exclusivamente mágico. Outras sabedorias não eram fictícias, tinham valores medicinais e englobavam uma série de conhecimentos técnicos, complexos, que produziam efeitos reais.
Um dos mais importantes trabalhos sobre a medicina e os remédios dos índios brasileiros foi desenvolvido pelo alemão Karl Friedrich Philipp von Martius, em viagem que empreendeu através do Brasil, incluindo o Piauí, durante três anos, de 1817 a 1820. Martius percebeu o quanto era danoso para os índios, o contato e as imposições do homem branco que sacrificavam a sua cultura “[...] os brasis mostram-se logo incomodados e aborrecidos por tudo que afete de modo contrário à sua vida anterior; em breve definham em conseqüência de profunda melancolia e desprezo em que se acham; perdem o apetite e a agilidade dos membros; caem no abatimento geral [...]”.
Martius veio para Brasil, acompanhando a comitiva da grã-duquesa da Áustria, Leopoldina, esposa de dom Pedro I. Recolheu apontamentos para suas pesquisas botânicas, e no seu livro Natureza, doenças, medicina e remédios dos índios brasileiros, publicado em 1844, deixou anotações sobre a medicina dos índios brasileiros.
Antes de 1500, de forma geral, os brasis tinham boa saúde, vigor e longevidade. Disputavam, entre si, os espaços do território brasileiro mais privilegiados pelo clima e abundância de alimentos. Entre estes espaços, o mais cobiçado era o litoral, o que mostra a boa condição física dos Tremembés, que dominaram larga faixa da costa brasileira, desde o Ceará até o Maranhão, passando pelo Delta do Parnaíba e incluindo o Norte do Piauí.
No choque do contato entre o Novo e o Velho Mundo, os brasis levaram desvantagem, tanto em relação ao conflito armado, como na falta de resistência às doenças trazidas pelos europeus, para as quais os índios não tinham imunidade. O impacto de agentes patogênicos desconhecidos pelos nativos, como o da varíola, sarampo, coqueluche, tifo, catapora, difteria, gripe, peste bubônica, malária, e até a cárie dentária, já no século XVI, tinha dizimado grandes populações. Outro agente que favoreceu as epidemias foi a densidade dos aldeamentos, estratégia dos europeus para concentrar os índios num determinado local, e liberar suas antigas terras, para os colonos. Nesses aldeamentos, os índios eram aculturados e forçados em grandes tarefas.
Ao chegar ao Brasil, o homem branco não contava com a medicina europeia. Foram os jesuítas os primeiros a observar e usar as ervas indígenas. Criadas ainda no século XVI, as Casas de Misericórdia da Bahia e do Rio de Janeiro, no seu começo, instaladas em choças, se valeram das plantas nativas. Na época colonial, esses métodos de cura estavam presentes no cotidiano dos colonos. Uma das frutas observadas foi o caju, reparador da saúde dos escravos negros, na exaustão provocada pela longa e penosa travessia do Atlântico. Os cajueiros chegaram a ter proteção por decreto de Maurício de Nassau. O aça-iu, para os índios, significava ano, uma vez que contavam a idade a cada safra, o que permitiu se conhecer a sua longevidade. O guaraná, planta sagrada para os indígenas da Amazônia, era usada como suprimento de guerra, pela propriedade estimulante de aumentar a vitalidade, e como regenerador do organismo.
Pero de Magalhães Gândavo, em “História da Província de Santa Cruz” de 1567, foi o pioneiro ao descrever o óleo de copaíba como analgésico e cicatrizante eficaz, tornando-se um dos principais produtos de exportação do Norte do Brasil Colonial. Gabriel Soares de Sousa, em Tratado Descritivo do Brasil de 1587, prescreveu terapias aprendidas com os indígenas. Frei Vicente do Salvador, em História do Brasil de 1627, descreveu a flora brasileira com suas utilidades na medicina, e afirmou que “[...] não há enfermidade contra a qual não haja ervas em esta terra, nem os índios naturais dela têm outra botica ou usam de outras medicinas”.
A flora brasileira despertou Grande interesse nos cientistas dos séculos XIX e XX. Dom João VI foi um grande incentivador para o conhecimento das ervas do Brasil, quando mandou vir da Europa, comitivas de pesquisadores, como a dos naturalistas Spix e Martius. Países, como a Alemanha, no início do século XX, enviaram dezenas de expedições, principalmente para Amazônia, com o fim de catalogar, colher e estudar os princípios ativos desses vegetais.
Hoje, através da etnomedicina, que é o estudo da sabedoria específica das práticas empíricas de diagnosticar e selecionar plantas e dietas utilizadas como medicamento pelos nativos, procura-se conhecer, estudar quimicamente, e aproveitar esses conhecimentos na medicina científica. Pedro Paulo Funari, historiador e arqueólogo, em Arqueologia, livro publicado em 2006, afirma que “Cerca de 30% da população brasileira [61 mi de pessoas em 2009] tem alguma ascendência indígena e a influência indígena em nossa cultura vai da língua à culinária, passando pelos nossos costumes de asseio pessoal (os famosos banhos freqüentes)”. Os índios e o seu legado não são apenas páginas da história. Sua cultura, mesmo sacrificada, é parte do presente do povo brasileiro, precisando ser reconhecida e valorizada.
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