


“Dessa fatal corrupção das sociedades nasce o maior inimigo da liberdade, o indiferentismo. Quando uma nação pervertida e podre chega a cair neste estado paralítico, nem há que esperar para a liberdade, nem que recear para o despotismo…”
Colonizado por mais de três séculos, o Brasil foi construído sob o manto da exploração e do autoritarismo. Ao longo de quase quatros séculos, o país viveu a escravidão, quando o índio e o negro africano eram considerados peça de trabalho. August de Saint-Hilaire (1779-1853), naturalista francês que viajou pelo Brasil, entre os anos de 1816 e 1822, demonstrando carinho e preocupação com o futuro do país, observou:
Dessa influência perniciosa formou-se a cultura brasileira fadada a achar comum e natural, o mandonismo, a corrupção, a propina, o tráfico de influência, o nepotismo, o absolutismo e a extorsão. Já no período colonial, alguns portugueses, como colonos, desfrutavam de ordenados pagos pela Coroa, vindos dos impostos pagos pela terra de Santa Cruz, privilegiados, que ficaram conhecidos como os filhos-da-folha. Também neste período, ficaram conhecidos os “presentes” pagos a corrupta e morosa estrutura judicial e administrativa, pois quem não dava, não vencia demandas.
Explicada pelo processo histórico, essa distorção humana do brasileiro não mais se justifica, uma vez, que o prejuízo, é sabido, é de todos. A corrupção gera violência, vinda do grande desnível social, dos contrastes e da falta de oportunidades para todos.
Hoje, o Brasil se encontra encabeçando lista de países onde a corrupção não tem medidas. Embora a mais visível e questionada seja a corrupção política, o brasileiro parece não se dar conta quando procura o famoso jeitinho, para contornar o que seria seu dever de cidadão ético.
Recursos que são desviados principalmente da educação geram prejuízos em escala geométrica. Sem ter como adquirir conhecimentos e senso crítico, uma grande massa de excluídos fica na mão de políticos de profissão. Esta massa, por sua vez, é geradora de novos indivíduos que também irão repetir os atos de ignorância e servidão, fazendo perpetuar um ciclo de desigualdade social.
Fruto também da corrupção é a impunidade, tornando os escândalos repetitivos e previsíveis. Mesmo com farta documentação que deveria levar políticos à cadeia, isso no Brasil não ocorre, tudo acabando, no já famoso, prato italiano. Mesmo grandes pensadores políticos, no Brasil, seriam meros aprendizes.

Maquiavel (1469-1527), dizia que os fins justificavam os meios na condução pública, autor do best-seller O Príncipe, seria, no Brasil, um aluno medíocre, na escola da esperteza política.
Países vizinhos do Brasil fazem diferente com seus políticos indecorosos, afinal essa classe não é nenhum privilégio verde amarelo. Mas, só aqui parece que os culpados ficam impunes. Como exemplo, o Peru, onde Montesinos e Fujimori foram apanhados e condenados. Apesar da saúde fragilizada, o ditador Pinochet não escapou dos rigores dos tribunais do Chile e morreu em prisão domiciliar, respondendo por cerca de 300 processos criminais relacionados aos assassinatos, tortura e seqüestros realizados por seu regime. Aqui, os crimes da ditadura militar ficaram impunes.
No Brasil, a classe política não tem escrúpulos quando o assunto são leis em causa própria. Um estudo da organização Transparência Brasil concluiu que os parlamentares brasileiros são os mais caros do mundo. Um minuto trabalhado por eles custa o equivalente a 11,5 mil reais. Um senador custa anualmente 33 milhões de reais, e um deputado, 6,6 milhões. Um absurdo, mesmo se comparado com países como Itália, França e Espanha, e mais ainda, com vizinhos como a Argentina. Alinhados com o Congresso, estão os nossos deputados estaduais e vereadores. Governantes fazem a festa com o nepotismo e o emprego de partidários, na maioria das vezes, gente totalmente incompetente para o exercício de posições e cargos estratégicos, na administração pública, fazendo penar todo conjunto da sociedade. Políticos e parentela, grupos fechados com cultura de ajuda mútua colocam os interesses dos membros, acima dos interesses do povo, se beneficiam, em detrimento do povo. Nos Estados Unidos, o presidente nomeia 90 cargos em comissão; no Brasil, o presidente tem 60 mil cargos para nomear. Governadores e prefeitos determinam quantas secretarias querem para as suas medíocres administrações, criando pastas que não passam de agasalho para partidários.
O Brasil se encontra no grupo da corrupção, onde estão países como Azerbaijão, Bangladesh, Bolívia, Camarões, Indonésia, Quênia, Nigéria, Paquistão, Rússia, Tanzânia, Uganda e Ucrânia. No Piauí, são muitas as denúncias de corrupção, mas não há notícias de prisão dos culpados, e menos ainda, devolução do dinheiro público roubado. Orgãos como Agespisa e Detran são sempre os preferidos pelas quadrilhas. Mesmo com a Polícia Federal e suas operações, o mar de lama continua. Empresas fantasmas, notas fiscais frias, licitações fraudulentas, superfaturamento, obras não realizadas, caixa 2, crimes de campanha eleitoral. As quadrilhas que se formam para arruinar o patrimônio público, a cada dia, vêm sofisticando seus estratagemas.
A corrupção está entre os grandes males que destroem a nossa sociedade, facilitando o aparecimento de favelas, e alimentando o crime e a violência, nas cidades de modo geral. As comunidades se tornaram indiferentes e alheias a tudo isso, reina o indiferentismo. Os cidadãos foram tomados de um grande ceticismo em relação à possibilidade de se ter uma política voltada para o interesse comum. Votar é um processo, de certa forma, doloroso para o brasileiro, que a cada eleição assiste um festival de promessas, quase nunca cumpridas. Mesmo assim, é preciso que o cidadão tenha poder de indignação e reação, para mudar o triste quadro social do Brasil. Essa transformação passa pela mudança de comportamento de todos, a educação de nossos filhos, e a troca de nossos políticos de carreira, pois como diz o adágio: “político e fralda devem ser trocados pelo mesmo motivo”.
Imagem do destaque: http://corrupcao-brasil.blogspot.com/2008/11/corrupcao-e-impunidade.html
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