Memorial a quatro poetas de Oeiras

Foto: Divulgação

No dia 13, sexta-feira, à noite, no Café Oeiras, no centro histórico da velha capital, ocorreria o lançamento do livro Sonetos & Retalhos, do saudoso poeta Gerson Campos, ao qual pretendia comparecer, como de fato compareci. Por causa disso e também em virtude de minha já alongada e visceral ligação com a velhacap, resolvi fazer sozinho, em meu carro, o roteiro poético e sentimental de meu poema Noturno de Oeiras, percorrendo diversos logradouros e monumentos arquitetônicos da vetusta urbe.

O centro histórico venho revendo diariamente, posto que o Fórum, onde está instalado o Juizado Especial Cível e Criminal, fica nele situado. Dessa forma, todo dia revejo os casarões, os velhos sobrados, a casa de doze janelas e a catedral de N. S. da Vitória, os quais celebrei em meus versos. Do adro da velha matriz, revejo a bela praça e as suas palmeiras imperiais, quase diria episcopais palmeiras, uma vez que estão em episcopal cidade, a de mais acendrado e fervoroso catolicismo.

Em meu périplo turístico e poético, fui inicialmente à casa grande da antiga Fazenda Canela, onde viveu e morreu o grande poeta Nogueira Tapety, sobre o qual já tive o ensejo de escrever um pequeno ensaio de crítica literária. Contemplei-a bem, e a achei um tanto deteriorada. Falei isso ao Dr. Carlos Rubem, parente e admirador do poeta, cujo livro póstumo Arte e Tormento foi por ele editado, à noite, um pouco antes do início do evento cultural. Respirei aliviado quando ele me informou que o arquiteto Olavo Pereira da Silva Filho, com o qual se encontrava, estava fazendo o estudo de restauração da sede da extinta fazenda, que remonta ao século XIX.

Impregnado da lembrança dos versos do vate Nogueira Tapety, falecido ainda jovem, cujo extraordinário soneto Senhora da Bondade sei de cor, não pude deixar de me lembrar que outros três grandes poetas piauienses, nascidos em Oeiras, também morreram precocemente. Gerson Campos, o grande homenageado do dia, “traído” pelo coração, cujas engrenagens já vinham desengrenadas, faleceu com 39 anos incompletos, num estádio de futebol, que hoje ostenta seu nome, emocionado com a vitória da Seleção de Oeiras, ocorrida nos momentos finais da partida. Foi ele também radialista e desportista, além de ótimo goleiro; nesta posição fui seu colega, uma vez que também cometi minhas “voadas” e pontes acrobáticas em campos de futebol.

J. Ribamar Matos, funcionário do Banco do Nordeste do Brasil, também morreu precocemente, vítima de um desastre automobilístico, acontecido no Ceará, em circunstâncias que ignoro. Era um poeta ligado à tradição da poesia; seus sonetos, rimados e metrificados, tinham substrato geralmente lírico, pelo que estou lembrado. Um ano antes de sua trágica morte, prestou sentida homenagem a Gerson Campos, em emocionante texto, publicado no jornal O Cometa de junho de 1973, ainda sob o impacto do fatídico acontecimento, no qual dizia não aceitar a “injustiça da Morte, que nivela os bons e os maus”.

O outro grande bardo oeirense, colhido pela “indesejada das gentes” ainda relativamente no verdor dos anos, foi Licurgo de Paiva, patrono da cadeira que ocupo na Academia Piauiense de Letras. Sobre ele disse, por ocasião de minha posse no quase secular sodalício: “Licurgo José Henrique de Paiva, cuja carreira literária foi inicialmente tão auspiciosa, tão plena de esperança, foi depois gradativamente declinando até o seu trágico e melancólico crepúsculo, através de uma série de vicissitudes, em sua vida particular e profissional, sobretudo ocasionadas pela dipsomania, que frustrou todos os bons augúrios com que os astros lhe acenavam. Na derrocada final do sol negro da desgraça, terminou sendo enterrado numa sepultura por muitos considerada ignota, em lugar remoto do Piauí.”

Com a lembrança desses grandes vates em minha mente, e sabedor de que Nogueira Tapety, recolhido na Fazenda Canela, já nos momentos finais de sua curta vida, recebera a visita de Baurélio Mangabeira, outro versejador, e um tanto andarilho (uma vez que fora proprietário de um jornal tipográfico ambulante), que veio de Teresina, em lombo de cavalo, praticamente para se despedir do valoroso bardo tísico, imaginei que a vetusta casa da Canela, após restaurada, poderia transformar-se no memorial dos quatro grandes poetas oeirenses, a que me referi.

Continuando a minha peregrinação poética, turística e afetiva, fui ao adro da igreja do Rosário. Reverenciei o antiquíssimo templo. De lá, contemplei a madona da Vitória, a abençoar a cidade do alto do Leme. Do alto do Rosário, consegui localizar as igrejas de N. S. da Conceição e de N. S. da Vitória. Essa contemplação nostálgica, embebida só de emoção e da mais inefável poesia, me fez ir ao Morro da Cruz, para ver de mais alto a querida e velha cidade e a paisagem adusta e agreste, mas também bela, do seu derredor. Lembrei-me que sugeri, mais de década atrás, ao Dr. Carlos Rubem Campos Reis que encetasse campanha para que no alto desse outeiro fossem colocadas placas com poemas que cantassem a eterna vila do Mocha. Ele entusiasmou-se com essa ideia, mas certamente encontrou os obstáculos intransponíveis da insensibilidade governamental para a arte e a cultu ra.

À noite, com a alma encharcada de oeirensidade, fui ao lançamento do livro Sonetos & Retalhos. Foi uma noite memorável, memoranda. Jamais a esquecerei. Revi velhos amigos. Fiz parte de uma roda composta por Ferrer Freitas, seus irmãos Tadeu e Raimundo, Luís de Artaxerxes (senhor do Alto do Xé) e outros amigos. Foi uma festa de música e poesia. Belas melodias de excelentes letras, verdadeiros poemas, foram executadas e cantadas. O ator Bonifácio Lima, de forma magistral, interpretou o poema Monólogo de uma Rosa, emocionando toda a assistência.

Outras pessoas recitaram outros textos poéticos de Gerson Campos, provocando grande encantamento da plateia. Para minha grata surpresa, o experiente e notável cronista Ferrer Freitas, além de ter prestado breve depoimento sobre Gerson Campos, participou de um dueto musical com Vanda Queiroz, em que se saiu muito bem, mormente para mim, que não lhe conhecia a faceta musical.

O senador Wellington Dias fez a apresentação da obra, através de excelente texto, no qual discorreu sobre o livro e a rica personalidade do autor, em que predominava a cordialidade e o bom-humor, com os quais atraía duradouras e sólidas amizades, que ainda lhe reverenciam a memória. A amiga e professora Rita Campos, na qualidade de irmã, prestou a sua homenagem ao ilustre poeta e escritor. Cassi Neiva fez uma eficiente e esclarecedora apresentação de toda a solenidade lítero-musical.

Para que não se diga que neste registro quase não falei no livro Sonetos e Retalhos, 2ª edição, passo a fazê-lo agora, embora de forma sintética. Trata-se de um belo projeto gráfico e editorial, levado a efeito pela Fundação Nogueira Tapety, da qual é presidente o promotor de Justiça Carlos Rubem. Gutemberg Rocha foi o revisor da obra, e foi também um de seus organizadores e autor de vários textos nela acolhidos. De perfeito acabamento gráfico, foi a obra impressa em papel couché. Último Campos produziu-lhe a capa e Dino Alves fez-lhe a ilustração. O design gráfico é da autoria de Josélia Neves.

Enfeixa os sonetos de Gerson Campos, rimados, ritmados, metrificados, geralmente líricos; na parte denominada Retalhos foram coligidos os poemas de fatura e temática diversa, entre os quais vários acrósticos. Nos acrósticos se percebe o grande domínio técnico do bardo, porquanto ele faz o encadeamento dos versos de forma fluida, sem bruscas rupturas e produzindo boas rimas. Quem não é senhor dessa modalidade poética, geralmente coloca versos autônomos, que na verdade são apenas frases colocadas sobre ou sob frases, sem formarem efetivamente uma unidade harmônica e poética.

O prosador comparece com as crônicas de Caleidoscópio I a IV, que foram bastante elogiadas pelos escritores e poetas José Expedito Rego e Rogério Newton, com os quais concordo. Rogério escreveu um excelente ensaio sobre elas, em que lhes louva as virtudes. Em linguagem despojada, quase coloquial, Gerson fala de suas lembranças antigas, das figuras populares que conheceu na infância, de certos costumes que soube guardar na memória, para depois restaurá-las em sua prosa ágil e vívida.

O livro traz ainda um volumoso caderno de fotografias, que documentam a vida e a época em que viveu o autor. A parte Gerson para Sempre agasalha artigos, depoimentos, poemas e crônicas sobre o literato homenageado, em que as suas boas qualidades de poeta, de ser humano e amigo são louvadas com muita ênfase e entusiasmo. Foram escritos por várias pessoas (muitas o conheceram e lhe tinham admiração e estima), entre as quais cito Possidônio Queiroz, Costa Machado, Carlos Said, Gutemberg Soares, Dagoberto Carvalho Jr., Petrarca Rocha de Sá, Joca Oeiras, Bernadete Maria de Andrade Ferraz, além de outros escritores e poetas já referidos ao longo desta crônica.

O lançamento de Sonetos & Retalhos foi uma noite magna, mágica, magnífica, recheada de música e poesia, um verdadeiro e inebriante sarau lítero-musical, em que ouvimos belos depoimentos sobre o inesquecível Gerson Campos, um mestre da alegria, da amizade e da saudável boemia; assim mesmo, com sílaba tônica no i, para que rime com poesia e magia. Afinal, boêmia assenta mais aos gramáticos, puristas, castiços e falsos boêmios.  

 

Elmar Carvalho