No galope do martelo e outros galopes

No galope do martelo e outros galopes

Elmar Carvalho

Recebi, ontem, através dos Correios, acompanhado de uma carta (que só não é dos moldes antigos, porque é digitada, e não manuscrita ou datilografada), um livro titulado “causos e cousas (o sobejo do verso)”, da autoria do médico João Rolim, o remetente da missiva.

Ao abrir o envelope, me deparei com um livro de versos em estilo de cordel, mas também com alguns sonetos à velha escola, metrificados e rimados. O volume, conquanto singelo, foi bem cuidado, tanto na diagramação, feita por Fabrícia Lopes, como no acabamento gráfico a cargo da Sieart Gráfica e Editora. Até, para me causar suave nostalgia, achei que a tipologia usada guardava certa semelhança às letras das antigas máquinas de escrever, se é que a minha percepção não foi traída por discreto saudosismo. Para acusar o seu recebimento, enviei-lhe, uma ou duas horas depois, o seguinte e-mail:

“Caro Dr. João Rolim,

Acabo de receber seu livro ‘Causos e cousas (o sobejo do verso)’.

Tendo lido vários poemas, posso afirmar que concordo com o amigo Dr. Gisleno, autor da primeira orelha, e com o prefaciador: sem dúvida você é um notável poeta no gênero ou estilo que escolheu.

Noto que você absorveu os recursos dos grandes repentistas e cordelistas.

Tem talento na utilização apropriada das figuras de estilo, inclusive no uso habilidoso de rimas e ritmo.

Como você mesmo bem disse, é profundo em sua simplicidade.

Porém, podendo ser condoreiro, como um Rogaciano Leite e outros mestres da poesia popular.

Também notei sua técnica apurada no acróstico Enluaradas, pois não fez apenas um amontoado de frases, por vezes desconexas, para a formação da palavra que lhe serve de mote, como certos poetas canhestros o fazem.

Também se nota o rigor de sua capacidade rímica, quando glosou "Não há seca que seque o oceano / nem feitiço que acabe o nosso amor" com muita maestria.

Portanto, você é de fato um poeta com P maiúsculo, ou um "poeta completo" como disse o prefaciador, o caro Gisleno, que também lhe admirou o talento em compor belas metáforas.

Parabéns pelo seu belo livro.

Quando for a Parnaíba, terei a satisfação de lhe retribuir com dois livros de minha autoria; um de poemas, Rosa dos ventos gerais, e o meu romance Histórias de Évora, o mais recente.

(...)

Desculpe algum erro, pois não fiz a revisão, pois estou de saída para uma caminhada na Raul Lopes.

Atenciosamente,

Elmar Carvalho”

Quando enviei o e-mail acima transcrito, estava a ler a página 45. Ao prosseguir na leitura e concluí-la, posteriormente, verifiquei a confirmação das qualidades apontadas acima, assim como descobri outros recursos estilísticos usados pelo autor.

Seus temas abordam os mais diversos assuntos, desde a paisagem e os costumes sertanejos, até os amores sensuais e líricos. Os ritmos e a métrica também variam, conforme a proposta do poema, e pude constatar que o autor perpetrou martelos agalopados e simulou pelejas versificadas ou desafios com o necessário rigor.

Para finalizar, informo que deixei os livros prometidos no e-mail num posto de combustível, em frente à casa do endereço indicado, já que no momento não havia ninguém nela, tento o frentista me prometido fazer a entrega, tão logo visse algum dos moradores.

Por último, declaro que fiz uma bela viagem ao ler o livro de João Rolim. Às vezes, como se estivesse em mar encapelado, senti as ondulações de um galope à beira-mar; outras vezes cavalguei árdego alazão, nos sacolejos de um martelo agalopado, e, em outros momentos, como na velha música da bossa-nova, fruí a suavidade de “um barquinho a deslizar”.