Jornal Inovação e a queima dos Tapumes

JORNAL INOVAÇÃO E A QUEIMA DOS TAPUMES

Elmar Carvalho

            Fui hoje com o Canindé Correia à praia de Macapá, visitar o amigo comum Franzé Ribeiro. Para a nossa surpresa e satisfação, a sua mulher Clarice estava de aniversário. Tivemos uma palestra muito agradável com o Fabrício, filho dos anfitriões, Carol Porto e com o Érico Vinícius, que demonstraram ser jovens inteligentes, atualizados, de boa cultura e interessados em arte.

            O nome do último foi uma homenagem prestada pelo seu falecido pai ao grande romancista gaúcho e ao famoso poetinha, na verdade um grande poeta, pelo que a palavra deveria ser usada no aumentativo e jamais no diminutivo. Já havíamos estado nessa casa algumas vezes, e sempre nos sentimos à vontade, quase como se estivéssemos em nossa própria residência.

            Franzé e o Reginaldo Costa foram os fundadores do jornal Inovação, de cujo grupo fizemos parte este escriba, o Canindé Correia, Vicente de Paula (Potência), Flamarion Mesquita, Jonas Carvalho, João Maria Madeira Basto, Mário Carvalho, Jonas Carvalho, Porfírio Carvalho, Neco Carvalho, Ednólia Fontenele, Bartolomeu Martins, Danilo Melo e vários colaboradores, como Alcenor Candeira Filho, Karleno, Diderot Mavignier, Jorge Carvalho, Israel Correia e vários outros poetas e escritores.       Esse jornal circulou do final da década de setenta até o começo dos anos noventa, em periodicidade mais ou menos mensal. Tinha suplemento cultural. Fazia entrevista. Entre outros, foram entrevistados Francisco das Chagas Caldas Rodrigues, Assis Brasil, Ladislau João da Silva, Alcenor Candeira Filho e uma prostituta. Fez pesquisa social, com metodologia científica, vez que os questionários eram elaborados pelo estatístico João Batista Teles.

            Inicialmente, foi impresso em mimeógrafo, no formato apostila, tamanho A4. Foi o primeiro jornal parnaibano a ser impresso em off-set. O periódico pertencia ao Movimento Social e Cultural Inovação, que manteve uma biblioteca, durante muito anos, e promoveu palestras e debates. Graças a sua influência, surgiram vários outros jornais alternativos. Foi um jornal bravo e independente, que combatia a administração pública municipal, estadual e federal, ainda na época da ditadura militar.

            Quando o prefeito João Batista Ferreira da Silva destruiu a bela e velha Praça da Graça, para construir uma modernosa, o jornal combateu ferozmente essa decisão, ainda mais porque o início da construção demorou. A campanha do jornal, numa época em que a radiodifusão e o jornalismo eram bastante atrasados, e em que a internet não existia, foi muito forte, e terminou movendo a opinião pública contra a atitude do prefeito, até que populares, revoltados com a situação, derrubaram os tapumes que escondiam os escombros da praça, empilharam-nos e os queimaram. Foi uma verdadeira festa popular, pois, no dia seguinte, houve uma espécie de carnaval, com vários carros desfilando em torno dos destroços da praça.

            O Inovação era informativo, formativo e cultural, e vários importantes escritores, poetas e artistas plásticos publicaram suas produções nele. Foi, pelo menos durante alguns anos, o jornal mais lido e comentado de Parnaíba. Ainda hoje sinto uma nostalgia muito grande da falta desse jornal, e ter feito parte do grupo do Inovação é um de meus maiores orgulhos, e tem mais valor para mim do que certas honrarias.

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AS CHARGES DE GERVÁSIO CASTRO

De manhã cedo, estive na casa da mãe do Gervásio Castro, que está passando uma temporada em Parnaíba, sua terra natal. Radicou-se no Rio de Janeiro há várias décadas, e assimilou a parte boa do espírito carioca, sobretudo a maneira mais suave de encarar a vida e uma gostosa pitada de senso de humor. Foi ele que ilustrou os meus PoeMitos da Parnaíba, que publiquei em livro, a ser lançado brevemente em Parnaíba, em data a ser marcada pelo presidente da Academia Parnaibana, Antônio de Pádua Ribeiro dos Santos.

Não nos conhecíamos pessoalmente, mas apenas através de e-mails e de telefonemas, embora tenhamos vários amigos comuns. Posso dizer que o Gervásio captou o que eu quis transmitir através dos PoeMitos de um modo tão perfeito, como eu jamais poderia imaginar. Soube retratar a parte satírica e erótica com muita criatividade, de modo sutil, elegante, delicado mesmo, que não agride a sensibilidade de ninguém, dando ao personagem graça, leveza, com certeira dose de humor, que disfarça a parte mais crua da nudez e de eventual escatologia de alguns dos poemas.

Suas charges são coloridas, mas com cores que se harmonizam entre si e com o desenho ou retrato. Tentou extrair das personalidades o que elas tinham de mais belo ou de mais pungente. Seus traços são perfeitos, mesmo quando se avizinham da caricatura e sempre parecem respeitar as leis da perspectiva e da proporcionalidade, mesmo quando têm como objeto alguma deformação física. Por isso mesmo, mereceu o elogio do prefaciador, o mestre e doutor em Literatura Brasileira, Cunha e Silva Filho, crítico abalizado, ensaísta da melhor estirpe e cronista de mérito.

Seu irmão, Fernando Castro, é outro monstro sagrado e consagrado da charge e da caricatura. O Gervásio está levando a cabo a missão difícil de ilustrar o poema épico moderno A Zona Planetária, de minha autoria, que pretendo transformar em livro, com o acréscimo de um ensaio sobre os velhos cabarés. Sem dúvida a cumprirá com brilhantismo, pois suas charges, em muitos momentos, têm rasgo de verdadeira genialidade.  Será prefaciado pela Teresinha Queiroz, uma de nossas maiores escritoras e historiadoras, membro da APL, com vários livros importantes publicados.                                  

15 de fevereiro de 2010