Retratos e uma charge de Gervásio Castro

Retratos e uma charge de Gervásio Castro

Elmar Carvalho

O presidente Nelson Nery Costa, em suas profícuas e dinâmicas gestões na Academia Piauiense de Letras (está no seu terceiro mandato), reformou o belo e velho prédio onde está sediado o sodalício. Esse sobrado tem uma bela história, talvez povoada de fantasmas e recheada de lendas, que ainda está por ser contada. Coroando essas realizações, criou uma pinacoteca e um museu, com importantes obras doadas por ele próprio e por outros acadêmicos.

E resolveu aperfeiçoar e expandir a galeria de patronos e acadêmicos, tornando-a completa e tanto quanto possível padronizada. Para isso solicitou a colaboração dos acadêmicos. Com todo esse trabalho de restauração e reforma da sede e ampliação da galeria, o meu retrato terminou não sendo encontrado, pelo que ele me pediu um outro, para que a Cremísia Alberto de Sousa o adaptasse ao padrão dos demais.

O retrato não localizado era uma fotografia artística feita pelo grande fotógrafo Gilmar Maccagnan, elaborada há, aproximadamente, vinte anos, um pouco depois de eu haver ingressado na magistratura piauiense. Ao contar que eu tinha uma outra desse grande mestre da arte fotográfica, nos moldes da extraviada, a Cremísia me esclareceu que ela não se adequava à galeria, pois, além de ser colorida, era, em suas palavras, “muito fashion”, com o que concordei.

Era, no entanto, uma bela fotografia, não resta dúvida. Fazia parte de um “pacote”, integrado por um álbum e por um grande quadro com uma excelente “fototela”, de fundo esfumaçado, difuso, em que ele, ao que parece, acrescentava efeitos com o uso de lentes, de modo a imitar os retratos clássicos, feitos por grandes artistas da pintura universal. Na grande tela do retrato fotográfico, que orna a nossa sala, estamos eu, a Fátima, a Elmara e o João Miguel. Todas as fotos eram, digamos, analógicas (alguns tolos diriam anacrônicas), sem o uso do famigerado fotoshop, com a consequente maquiagem e rejuvenescimento eletrônico.  

Não existindo o elixir da juventude e não podendo eu voltar no tempo, lembrei-me de um pôster, em que eu estava no auge de minha maturidade, ou melhor, no seu início. O retrato era frontal e eu estava de terno. Rosto sério, sem “os risos fáceis da alegria”, eu aparentemente não fazia pose. Seu autor é o falecido jornalista, historiador e fotógrafo Dinavan Fernandes, membro do cerimonial do TJ-PI. A Cremísia, que é também uma exímia fotógrafa, fez a redução necessária e o transformou em um belo preto e branco; e lhe colocou a legenda de praxe: “Elmar Carvalho – Cadeira 10”.

Essa cadeira 10, aproveito para informar, vem sendo uma cadeira de poetas, pois poeta foi o seu patrono Licurgo de Paiva, também jornalista, falecido em circunstâncias um tanto trágicas. O seu primeiro ocupante foi o barrense Celso Pinheiro, um dos maiores poetas simbolistas do Brasil, morto no mesmo dia em que também faleceu o grande Da Costa e Silva – 29 de junho de 1950. Foi sucedido pelo monsenhor Antônio Monteiro de Sampaio, meu mestre no curso de Administração de Empresas (UFPI – Parnaíba), compositor, notável orador sacro e poeta. Veio a seguir H. Dobal (Hindemburgo Dobal Teixeira), um dos grandes poetas brasileiros, que foi sucedido por este “poeta menor, perdoai!”, para usar uma expressão do poeta maior Manuel Bandeira.

Mas voltando à fotografia, a Cremísia me deu uma cópia virtual de sua reprodução.  Mandei imprimi-la em papel fotográfico, e a emoldurei, para afixá-la em minha biblioteca. Agora, quando eu vejo esse retrato, e vejo o brilho de minhas pupilas, que então ostentava, recordo o rapaz que eu fui, cheio de sonhos e alegria, apesar do semblante algo circunspecto. Mandei lhe fosse posta a mesma legenda acima transcrita. Mas o rapaz, talvez por ser também flamenguista, fez as letras em vermelho, a fazer contraste com a própria foto.

 

Para aproveitar a viagem e o tempo, reproduzi no mesmo estúdio, no mesmo tipo de papel, uma charge elaborada pelo Gervásio Castro, em seu estilo inconfundível um dos maiores chargistas do Brasil, datada de 19 de maio de 2010. Nela o Gervásio me retratou como juiz, flamenguista, leitor, blogueiro e literato, porquanto envergo uma toga, empunho um martelo (não o de Thor, claro está), e puxo um carrinho no qual estão livros, um computador e uma pena de escrever. Debaixo da veste negra, talar, feita por minha saudosa mãe, visto uma gloriosa camisa do Flamengo.

Entreguei na sede da Academia, já devidamente emoldurada, a charge, para que seja afixada em nosso museu, já que se trata de uma obra de arte, feita com esmero por um dos melhores chargistas nacionais, o caro amigo Gervásio Castro, cujo irmão, Fernando di Castro, pode com ele ser ombreado. Ambos são parnaibanos, porém o Gervásio se radicou no Rio de Janeiro, embora passe temporadas em Parnaíba, ao menos uma vez por ano.

O Osvaldo Assunção, no sábado, disse-me que ia esperar a chegada de mais uns quadros para providenciar sua “entronização” na parede. Pensando na alta qualidade dessa obra e no espaço ainda disponível, pedi-lhe: “Mas, por favor, não demore muito, para que esse quadro tenha um bom lugar”. O Osvaldo sorriu, e balançou a cabeça em assentimento. Talvez eu tenha sido egocêntrico, mas o Gervásio e a charge bem merecem o que solicitei.