Dia de Reis é Dia da Gratidão

Imagem: arquivo Google

A cidade de Jerusalém era calma.

Seu grande templo, quase orgulho da raça, reconstruído por Herodes, nomeado Rei da Judéia pelo Imperador Romano — esse templo se fazia, também, um centro de boatos que rompiam com a tranquilidade local.

É que alguns sacerdotes da Pérsia haviam chegado à capital do judaísmo e, buscando o pátio do templo, indagavam:

— Onde está o menino que nasceu para vir a ser o Rei dos Judeus?

— O que vocês dizem? — perguntou o capitão da guarda — Um novo Rei dos Judeus?!

— Sim! É isso mesmo — respondeu educadamente um daqueles sacerdotes — Estamos chegando do Oriente, onde vimos as Luzes que anunciavam o nascimento dele!

— Vocês estão enganados! Não há nenhum outro Rei, a não ser Herodes.

— Não havia! — assegurou outro daqueles sacerdotes — Mas agora há e viemos adorá-lo!

 

*****

 

O Rei Herodes espumava de rancor.

Fechando o punho, bateu estrondosamente sobre o tampo de uma mesa, vociferando:

— Quero saber! Quero saber!

Os grandes sacerdotes do templo e os escribas, convocados às pressas para aquela reunião no Palácio Real, estremeceram diante da cólera do Rei Herodes, por sabê-lo muito cruel, quando contrariado.

— Vamos, seus palermas! — gritava irado — Que história é essa do nascimento de um outro rei, em minhas terras?

Silêncio pesado sobrepairava no salão.

— Onde esse tal de Cristo haveria de nascer? — gritou o Rei, examinando a reação de cada um daqueles servidores do templo — Onde? Digam-me!

O principal deles adiantou-se:

— Rei Herodes! Segundo a profecia, o Cristo haveria de nascer na cidade de Judá, no vilarejo de Belém!

— Que maldita profecia é essa? — prorrompeu o irado Herodes, dando socos no ar — Que profecia é essa, sacerdote?

O sacerdote, temente, esclareceu:

— O anúncio profético, Majestade, diz: "Você, Belém, terra de Judá, já não é de modo algum a menor entre as cidades de Judá, porque de você sairá um guia que há de apascentar ao meu povo de Israel".

Herodes avançou contra o sacerdote, espumando de rancor e, tomando-o pelo pescoço, ordenou:

— Tragam-me esse falso profeta aqui! Vou matá-lo com minhas próprias mãos, para que não mais lance perturbação em meu reino!

— Não posso trazê-lo, Majestade!

— Você me desafia?

— Não, meu Rei! Não o desafio! É que quem fez essa profecia foi Miquéias, um profeta já morto há muitos séculos!

 

*****

 

O capitão da guarda, instruído por Herodes, foi com alguns soldados, nas horas da noite, à estalagem, onde sabiam estarem hospedados os sacerdotes do Oriente.

— Onde estão os persas? — indagou do estalajadeiro, com voz calma, pacífico.

— Vieram... prendê-los?! O capitão sorriu.

— Não! Não viemos prendê-los, já que são estrangeiros bem-vindos ao palácio de nosso Rei Herodes.

Assim, dentro da noite serena, escoltando os médiuns da Pérsia, os guardas os conduziram à presença de Herodes.

— Ah! — exclamou sereno Herodes, ao vê-lo em seu salão real — Dispense a guarda e deixem-nos a sós.

O capitão atendeu e todos se retiraram. Herodes aproximou-se do grupo à sua frente.

— Os senhores... vieram do Oriente! Quem são, afinal, para que possamos dar-lhes o trato fidalgo que merecem?

O principal deles respondeu:

— Somos sacerdotes da Religião de Zaratrusta que, alguns, conhecem por Zoroastro!

— Então... são homens de... Deus?!

— Homens a serviço de Deus! — retificou o sacerdote.

— E... o que os trouxe até este meu reino?

— É que, em nosso templo, na Pérsia, vimos a Luz do Mais Alto, que nos anunciava o nascimento do Cristo de Deus! E, por sabê-la verdadeira, viemos a segui-la, através de nossa clarividência e... viemos adorar aquele que nasceu para liderar o povo de Israel.

Herodes, a custo, conteve seu impulso agressivo e, transpirando nervosamente, ensaiou pálido sorriso.

— Eu, também, quero... adorá-lo! — falou Herodes — E, por isso, quero que vocês vão até a cidade de Belém e, informando-se alegremente sobre esse menino e onde se encontra, voltem para cá, trazendo-me notícias dele, para que eu também vá adorá-lo, uma vez que ele será... o meu rei!

— Deus seja louvado! — saudou o médium persa — Tudo faremos, como Vossa Majestade nos ordena!

— Oh! Não! Não lhes ordeno, caros sacerdotes! Suplico-lhes... Peço-lhes... já que ficarei jubiloso em dele ter notícias seguras!

 

*****

 

Aqueles médiuns partiram felizes.

Tão logo se puseram em caminhada, rumo a Judá, voltaram a ver a Luz Espiritual do Mais Alto, que os havia guiado até ali.

Acercaram-se de Belém.

Um deles, levantando o braço, fez que todos parassem, logo à entrada do vilarejo.

— A Luz, pairou sobre aquela casa!

— Lá deve estar o Senhor! — exclamou outro deles.

Cautelosos e confiantes, avançaram na direção da Luz.

Bateram à porta, corações envoltos por profundas emoções, pressentindo que veriam o Senhor.

Silas abriu-lhes a porta.

— Aqui... está o Salvador? — indagou um deles, esclarecendo a seguir:

Viemos do Oriente para adorá-lo!

Abrindo inteiramente a porta, Silas correu avisar Maria da visita inesperada.

Maria veio recebê-los.

— Você... é a mãe? E a mãe daquele que regerá o povo de Israel?

Maria os fitou, enternecida.

— Sou a serva do Senhor! E Jesus, meu Filho, naturalmente se fará servidor de todos os povos, doando seu coração para a causa da Harmonia e do Bem! O médium ajoelhou-se, aos pés de Maria, beijando-lhe as mãos, em lágrimas de verdadeira felicidade.

— Ah! Finalmente o Cristo!

— Levante-se, bom homem — rogou Maria — Já que não será a meus pés que se fará a Luz do Mundo.

E, abrindo a porta do quarto, Maria disse-lhes:

— Aqui está o Senhor!

Os médiuns do Oriente, movimentando-se mansamente, um a um adentraram ao compartimento singelo e, diante do Menino, que os acolhia com luz em seu olhar, ajoelharam-se comovidos e o adoraram, orando.

 

* * * * *

 

Horas mais tarde, com a noite já presente, num céu salpicado de estrelas, hospedaram-se os médiuns na estalagem de Jacó.

Foram visitar o estábulo, na companhia de Silas.

Ouviram, dos lábios do jovem pastor, as narrativas sobre o anúncio do nascimento de Jesus, quando se encontrava com seus demais companheiros no campo das ovelhas.

— Levaremos a Boa Nova ao Rei Herodes! — assegurou um deles — Esta notícia deve percorrer todo este nosso mundo, com destaque aos apelos dos Espíritos Superiores de que tenhamos "boa vontade para com todos os homens".

E, dali, foram repousar.

Durante a noite, contudo, quando já se confiavam ao sono reparador, o mesmo espírito que os guiara até ali, materializou-se diante deles.

— Oh! Deus! — agradeceu um dos sacerdotes — Que fizemos para merecer tão alta graça?!

— Amigos — disse-lhes o Espírito Benfeitor— Não retornem ao palácio de Herodes!

Já que vocês viram o Cristo de Deus, afastem-se de Jerusalém e voltem ao templo de sua fé, anunciando a todo o Oriente que a Misericórdia Divina se faz entre todos!

E, assim, esses sacerdotes voltaram à Pérsia, sem passarem pela cidade de Jerusalém!

 

Livro - Maria de Nazaré - Roque Jacintho