Santo Souza (1919-2014) - Deuses Ensanguentados por Orfeu

Embora esquecido, SANTO SOUZA foi um dos maiores poetas da Língua Portuguesa

Negro, nascido poucos anos depois da abolição dos escravos, prático de farmácia, esotérico, filho único de mãe humilde do interior do Sergipe, teve por musa, Maria Ana, com quem viveu 70 anos, Santo Souza (1919-2014) impressiona pela força de seu dom lírico universal e intimista, onde aflora a sua genialidade órfica vocacionada.

Minha admiração por esse medalhão da poesia brasileira nasceu instantaneamente, quando da leitura de seu imenso legado literário. Em vida, Santo Souza publicou 19 livros de poemas, inaugurando aos 34 anos de idade a sua poética com CIDADE SUBTERRÂNEA (1953), sendo apresentado pelo intelectual Câmara Cascudo, que foi seguido por relevantes obras simbólicas intituladas Caderno de Elegias (1954); Relíquias (1955); Ode Órfica (1956); Pássaro de Pedra e Sono (1964); Oito Poemas Densos (1964); Concerto e Arquitetura (1974); Pentáculo do Medo (1980); A Ode e o Medo (1988); Obra Escolhida (1989); Âncoras de Arco (1994); A Construção do Espanto (1998); Rosa de Fogo e Lágrima (2004); Réquiem para Orféu (2005); Deus Ensanguentado (2008); Crepúsculo de Esplendores (2010).

Santo Souza não fica nada a dever à talentos substanciais e poderosos da palavra como Jorge de Lima, Mário Faustino, Gerardo Mello Mourão e Afonso Félix de Sousa. Sem generosidade alguma, Santo Souza merece fulgurar entre as maiores riquezas da literatura em língua portuguesa, tão alto quanto Fernando Pessoa ou Ferreira Gullar, poetas de reconhecimento inconteste.

 

de auroras,
noites
e sereias


Jogo os dados no mar, como quem joga
a sorte das estrelas ou do vento,
e fico a embaralhar as ondas, como
o lúcido hierofante que desvenda
 

nas cartas o destino dos mortais.
Não sei qual é a carta-chave, mas
capto o sentido exato e a voz de quem
profere a frase mágica de tudo.
 

E se há no fundo náufragos que vão
com dedos ágeis folheando páginas
de noites e de auroras impossíveis,
 


na superfície há sempre olhos profanos
de peixes e sereias, traduzindo
o jogo de meus dedos sobre o mar.

(ODE ÓRFICA [ 1956] - Uma das obras clássicas da literatura brasileira)

 

Ah, ousamos reger o mar sagrado

para onde a noite inválida se afasta

com a partitura efêmera das horas!

Treme no aquário nossas mãos. O rio

torna a mover-se, envolve nossos pés,

restaura o amor na imagem fugidia

de nossos olhos ímpios e vulgares,

e um riso antigo vem doer na boca

da sibila cruel que nos desata

o nó da liberdade que ansiamos.

 

Que surpresa incontida nos impele

e faz que penetremos insubmissos

nestes vales revoltos, nestas dunas,

neste vasto silêncio encarcerado

em templos e oceanos que não vemos?

Outrora aqui tecemos com paciência

lendas heróicas, lagos, e as palavras

com que reconquistamos o segredo

da noite inicial, e construímos

com a sua tessitura a eternidade.

 

Aqui com nossas lágrimas regamos

chão, firmamento, rios. Dissolvemos

a luz da aurora em nossas amarguras.

E, para dissipar o espesso tédio,

dilatamos o cerco do horizonte

para além das colunas demarcadas

pelo Eterno que, agora, nos contempla

e soma o nosso esforço, esta agonia

em que nos vamos iludindo a vida

com sangue, pedra, fel e poesia.

 

Mas onde os nossos mares? Onde as naves

que nossas mãos domavam, contornando

suas ondas e praias, suas vozes,

a sinfonia mágica das águas,

o rodízio das noites, a cantiga dos afogados, o sorriso e o choro

das crianças perdidas, navegando

nos braços das sereias, e a tristeza

de Deus, ao perceber nosso fracasso

no mar que ele nos dera e nós perdemos?

 

Era vasto o domínio. Nosso olhar

limitava o destino das fronteiras

por onde a morte inútil circulava.

Calculamos o tempo e o esperdiçamos.

Fomos tardos no avanço, e cedo vimos

fugir de nossas mãos o leme, e a rota

se perdeu. Nosso canto, diluído

nas águas, já não rege o itinerário

desta sagrada luta que engendramos:

perdido o jogo, a morte nos suplanta.

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Criaram flores de existência efêmera,
criaram noites e auroras nos caminhos,
aquários musicais para a canção
e estátuas para a vida e para a morte.

 


Criaram o teto do céu que sustentamos
em colunas de estrelas e de mares
e os rios que afagamos, derramando
a poesia da vida em nossas mãos.

 


E criaram também rios insones
que as nossas mãos jamais hão de acolher:
criaram faces com sulcos para as lágrimas,
pois havia corações para sofrer.

 


Mas sob o teto do céu que sustentamos
nós somos flores de existência efêmera
e – estátuas para a vida e para a morte –
nos deram olhos humanos para o pranto!

 

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A origem do amor é um fanal
que ilumina a fonte de nossa margura,
tornando nosso coração cheio de ternura luminosa,
semelhante à luz espiritual

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(SANTO SOUZA era autodidata e soprado por um gênio poético de grande envergadura)

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Era tão clara a tua voz, e tão
limpo o teu canto inaugural, ó noite,
que o tempo adormecia em tuas mãos!
De início, rejeitamos teus conselhos
dissimulados. Nautas fugitivos,
eis que a nave de Orfeu, que pilotávamos,
não nos pertence mais, pois a ofertamos
àqueles que hão de vir colher conosco
a treva e o medo, embora eles, no lago,
com a vida e as águas entre os braços, nos
surpreendam no triângulo da morte,
os olhos florescendo como peixes
que o teu milagre, ó noite, fecundou!

 


Transportamos pirâmides nos ombros,
para, sobre elas, construir o mundo
que nós, por sermos livres, sugerimos.
De música fizemos nossos mares,
para conter o céu que nos persegue.
Mas somos frágeis para suportar
a cabeça do Eterno, que se inclina
sonhando sobre nós, enquanto vamos,
ladrões famintos, carregando sombras.
Morrer? Não era a morte o que sonhávamos.
Somos pobres demais para morrer
com tanto ouro nas mãos, tanto arco-íris
nos olhos desta aurora que engendramos...

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Pescadores, camponeses, mineiros e tecelãs 
(condutores de cansaço, desespero e madrugadas); 
e operários – doadores de força, vida, agonia e suor para o cimento das soberbas construções, depois de muito lutar, depois de muito sofrer; 
 
Considerando que a terra, 
na magia de seus atos 
transforma em frutos e seiva 
o sangue vivo dos homens; 
 
Considerando que o vento, 
pastor das ondas do mar, 
e de todos os que lutam 
se quiserem respirar; 
 
Considerando que os rios 
(o mundo livre dos peixes) 
são de todos que têm sede 
nesta dura escravidão; 
 
Considerando que a noite 
(a semeadora de estrelas) 
é de todos que semeiam 
sementes e construções; 
 
Considerando, por fim, 
que a lei diz textualmente 
no artigo primeiro e único: 
“quem não trabalha não come”. 
 
Revestidos dos poderes 
que lhe confere a Lei 13, 
De maio de qualquer tempo, 
aprovada pelo povo 
em assembléia, 
 
Decretam: 
 
Art. 1º - Fica abolida a miséria 
nos lares todos do mundo 
e os frutos vindos da terra 
serão para os que têm fome. 
 
Art. 2º - Os ventos serão mantidos 
à altura das mãos humanas, 
como símbolos maduros 
da liberdade dos homens. 
 
Art. 3º - Os rios serão o espelho 
que há de sempre refletir 
as cores arco-irisadas 
da total felicidade 
 
Art. 4º - As noites serão o ventre 
na imensa fecundação 
da luz mansa do futuro, 
da redenção dos que sofrem. 
 
§ único - Para sossego geral 
hoje serão fuzilados 
miséria, fome, opressão. 
fabricadores de guerra, 
empresários da desordem, 
pilotos negros da morte 
destruindo gerações, 
ódio, trustes, latifúndio 
- tudo e todos que ora vivem 
 
Sugando as forças do mundo 

Bebendo o sangue do mundo

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(PÁSSARO DE PEDRA E SONO representa a fineza da dicção social de Santo Souza)

 

Cravar a estrela no chão

e dizer à noite: agora,

afaste-se a escuridão

que eu vou chegando com a aurora.

 

E fazer brotar da terra

- da terra que tudo faz –

não a treva e o ódio da guerra,

mas a luz e o amor da paz.

 

Que eu vim traçar nos caminhos

(invés de dor e agonia)

a rota livre dos homens

com as tintas claras do dia.

 

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E o mar fantasma: as ondas levantadas
assim, suspensas no ar, petrificadas,
como se acaso o tempo ali cobrisse
tudo o que existe - a vida, a terra, as mágoas -
num sudário de escombros e velhice,
petrificando até as próprias águas!
Corro a indagar dos mortos o segredo
que há nos restos dos braços das arcadas.
Grito às ruínas, aos túmulos. E quando
olho em torno de mim, vejo, com medo,
os olhos das estátuas assombradas
com os seus braços de pedra me acenando.
 
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FORTUNA CRÍTICA DE SANTO SOUZA:
 
 
"Dentro de seus versos há uma eterna lágrima que não consegue cair em nossas mãos. Não sabemos se é de pedra ou de fogo: sabemos apenas que é lágrima. Lágrima que arde, caminha, soluça, protesta; lágrima de um deus, ou de um demônio salvo talvez pelas mãos de um gênio dantesco."
                                                                                    PAULO BOMFIM
 
 
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DOCUMENTÁRIOS SOBRE SANTO SOUZA:

http://youtu.be/wZm4-fnaFDY

http://youtu.be/e8cnkGMY88g

 

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Poemas de Santo Souza

Minuta de

Diego Mendes Sousa

Da Academia Carioca de Letras