A música tocada no rádio

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Não está fácil ouvir música de qualidade nas rádios locais. É impressionante a quantidade de lixo musical que as emissoras despejam em nossos ouvidos. Na verdade, escuta quem quer, mas o rádio tem outras funções além dessas meramente “entreteiras”, de gosto duvidoso.

            Se quisermos escutar música que nos sirva ao mesmo tempo como entretenimento e ajude a enriquecer culturalmente nossos sentimentos mais nobres, temos que recorrer aos arquivos pessoais.

            A música sempre fez parte da programação de qualquer emissora desde o início da criação da radiodifusão. No Brasil, ele só ocupou seu espaço, alcançou seu apogeu, quando os programas humorísticos e as dramatizações saíram gradativamente de cena, a partir de 1950, em razão do advento das transmissões televisivas, que absorveram esses programas.

            Com o surgimento das emissoras operando em freqüência modulada (FM), a maioria dos programadores chegou a pensar, equivocadamente, que as FMs só deveriam tocar música, as conversas demoradas, debates e noticiários não poderiam fazer parte de sua programação, isso deveria continuar sendo assunto de emissora AM (amplitude modulada). Esta última caracteriza-se por uma qualidade de som inferior à das emissões em FM porque os receptores da AM sofrem interferência de fenômenos naturais, como raios e os artificiais, aqueles provocados por motores.

            O formato da maioria das emissoras em freqüência modulada, caracterizou-se, como se vê, pela transmissão musical durante quase todo o horário da programação. Era praticamente proibido falar outras coisas, exceto prefixo da emissora, a hora e alguns comerciais.

Mais tarde, descobriram que só tocando música não tinham como pagar as contas da emissora. Hoje, temos rádios FMs que tocam só notícia (CBN de Brasília) Recentemente, descobriram que também estavam errados, só falando, informando, nada de música, quando entrevistavam cantores. Sem música, como o ouvinte iria conhecer seus ídolos ou apreciar a sua música? Com isso, passaram a tocar música, ainda bem.

Com o advento das rádios comunitárias – a Lei nº 9.612/98 estabelece claramente o que são essas rádios e para que elas foram criadas – pessoas desqualificadas passaram a usar a rádio, no caso da música, para tocar apenas o que lhe interessa ou que lhe meteram em seus ouvidos, via mídia nacional. Até mesmo as emissoras comerciais, com autorização para funcionarem e instaladas, caíram na armadilha de só tocar o besteirol de sempre, o chamado “popular medíocre”.

Será se isso só está acontecendo por conta da imposição da grande indústria cultural? Há outros motivos para que esse mau gosto tenha se instalado definitivamente nas rádios. Quem faz a programação musical das rádios no momento? Jovens mal pagos, com pouca ou nenhuma formação musical, pessoas desqualificadas de audição, sem vivência e conhecimento de programação musical voltada no sentido de formar o ouvinte, ampliando seus horizontes educativos e culturais.

Toca-se o que está em voga, daquele grupo, cantor ou cantora que apareceu domingo no programa da televisão. E como esse pessoal passou de repente a celebridade no campo musical? Que interesses estão em jogo por trás desse súbito sucesso comercial? Aparecem bem comportados na telinha, dançando, cantando e fantasiados, tudo igualzinho, com letras fraquinhas, de mau gosto, melodia ruim, mas vendem milhões de discos. Sabe por que? Porque fizeram você gostar dessas musiquinhas idiotas. Não foi você que escolheu gostar disso, houve uma imposição da grande mídia, principalmente por parte dos apresentadores televisivos mais conhecidos.

É exatamente essa música ruim que mais aparece, toca e vende. Quanto mais toca, mais vende. Eles ficam cada vez mais ricos e o ouvinte mais pobre culturalmente, porque incorporou à sua cultura um produto fabricado para esse fim, como bem retrata Dioclécio Luz, em seu livro Rádios Comunitárias.

Ouvir uma música do Chico Buarque, Sivuca, Luiz Gonzaga, Caetano, Jackson do Pandeiro, Alceu Valença, Zé Ramalho, Ana Carolina, Elis Regina e tantos outros nessas rádios, nem pensar. Os cantores que chegam ao mercado tem todo o direito de ocupar seu espaço, mas tem que vir com música para entreter, mas também para enriquecer e não embrutecer culturalmente o ouvinte.

Mês passado, estiveram se apresentando em Parnaíba os músicos Matthieu Pickersgill (francês) e Valentina Oses (chilena), ele na flauta e ela na escaleta, teclado de sopro. Para nossa surpresa, tocaram exatamente aquilo que as nossas rádios não tocam: a genuína música brasileira, passando pelo chorinho, MPB, forró bem feito e pela tradicional música estrangeira.

 

 

 


Joaquim Lopes Saraiva
 
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