Sem nome. Uma nêga. Como tantas outras.

Aqui, uma leve crítica. Muito simples. Sem muitas pretensões de reconhecimento dos literatos ou críticos de teatro. Apenas uma fotografia do que ficou na alma sobre A Nega sem nome.  

Trazer à memória o passado de gente de prestígio, de pessoas de posses e que tinham alguma espécie de destaque social é uma tarefa bem fácil, hão de concordar; mas, trazer à memória a história de uma pobre negra escrava, a qual sequer era tratada por seu nome, escrava de um coronel, senão o mais, mas um dos mais temidos no Piauí, ah...Isso sim é, de fato, uma missão árdua, uma peleja. E transformar essa história em um espetáculo teatral é, então, uma audaciosa aventura.


   

No dia 24 de agosto, deste ano, estive no Teatro do SESC AVENIDA prestigiando o espetáculo “A NEGA SEM NOME”, do dramaturgo que ora floresce na literatura parnaibana: Sharles Nascimento; além de pesquisador, bailarino e dramaturgo, é também ator do espetáculo, que se materializa como um monólogo.

Ao me ver degustando cada segundo daquela obra de arte, fiquei a indagar-me quantas negras e quantos negros se perderam pelos caminhos do preconceito e do ódio... Quantos ainda se perdem pelos caminhos da intolerância e por terem uma vida marcada por uma história tão cruel... Quantas negras e quantos negros tiveram seus nomes ocultados na intolerância da sociedade parnaibana do século XIX. Quantas negras e quantos negros se perderam por entre ruas e casarões, por entre o ódio das bocas que mastigaram a sua dignidade...

A Nêga sem nome. A cada movimento trabalhado conscientemente do ator em cena, a alma se acometia de um misto de sensações; em cada palavra proferida, uma reflexão sobre a vida, sobre a persistência, sobre a essência do existir aqui neste mundo. O texto simples , obviamente, fruto de uma difícil pesquisa. Simples, mas não supérfluo, mas não incoerente, mas não inútil. Simples, porém questionador; instigador da alma humana. Assim como o texto, o cenário minimalista, não advindo do desleixo, não... Mas emergente de uma precisão cênica que se basta; um cenário que não precisa ser muito para produzir no expectador efeitos emotivos... Elementos cênicos muito bem pontuados e que foram se complementando no desenrolar dos fatos.


   

O espetáculo constrói na alma da gente nuances de sensações que a Nega, ali representando no mais profundo de si todas as negras sem nome da Parnaíba, do mundo, vem desfolhando, remexendo... E, assim também “sacudindo” a história, as mentes, o orgulho da gente, o nosso papel social, as nossas concepções sobre igualdade, sobre a vida e sobre a morte. Constrói-se a história sobre um aplano antagônico e, por que não afirmar, antitético? A todo momento, a luz e a sombra; a tristeza da perda e a alegria da liberdade; A derrota e a vitória; a inutilidade e a utilidade... Numa suposição, atrevo-me a afirmar que o dramaturgo e ator Sharles Nascimento utilizou essas contraposições para assim mostrar todo o conflito interno vivido pela Nega Teresa, que teve sua vida transpassada pela espada da dor e da humilhação e, mesmo assim, decidiu lutar por um sonho, aparentemente simples: Comprar um caixão, para nenhum de seus irmãos serem jogados ao rio... Aparentemente simples, mas não essencialmente. Um caixão simboliza o fim, o fechar das portas da vida, o descanso. O sonho de comprar um caixão é pra dizer que, ao menos na morte, ao menos no fim, pode-se ter igualdade. O sonho de ser igual. O sonho de ser alguém. O sonho de conseguir dar ao outro o melhor de si, a solidariedade, o amor-caridade.


       

O espetáculo é sim uma cavalgada por matizes de sensações e de emoções. Um ser exposto, desfolhado, oferecendo-se à sociedade parnaibana de hoje; o ser da Nêga Teresa, essência de tantas outras Teresas e Marias e Joaquinas e Socorros e tantas e tantas outras mulheres marcadas pela violação de seus direitos, não importa se hoje ou ontem. Um ser, que no palco do SESC derramou-se pelas mãos também negras do ator Sharles e pousou sobre o ponto essencial da dramaturgia na cena; pousou sobre o ponto essencial que é ser o que a alma do ator transborda e que transcende as técnicas (claro, também necessárias e que ele tem de sobra) e se fez refletir nas emoções do expectador, como um suspiro leve, talvez para amenizar o peso da luta da Nega Teresa.

A Nêga sem Nome: Pesquisa, Técnica, Talento, Essência, Reflexão, Precisão Cênica, Substancialidade; um presente para a Parnaíba. Como afirmou o ator, após a apresentação: “Um espetáculo que ainda está em construção, que ainda vai crescer, que ainda vai se expandir...” e, acredito, que ainda irá se entrelaçar com tantas outras histórias perdidas pelas linhas invisíveis da história, do tempo...

Texto: Verônica Damasceno

Fotos: Mauro Freitas de Ataide.

Intérprete/criador: Sharles Nascimento